pontolit

Arquivo de Julho de 2007

Wu Ming e a revolução dos escritores sem rostos

Wu Ming: a banda dos escritores sem rostos

No fundo, também os aspectos mais ridículos e espalhafatosos do ofício de escrever baseiam-se numa versão degradada do mito do artista, que se torna uma “estrela” pelo facto de o considerarem de alguma forma superior aos “comuns mortais”, menos mesquinho, mais interessante e sincero e, num certo sentido, heróico já que suporta os “tormentos” da criação. (*)

Eis um dos deveres do narrador, relacionados por Wu Ming, autor de 54, em suas Notas para uma declaração dos direitos (e deveres) dos narradores, onde ainda poderá ser lido:

O narrador tem o dever, de não se considerar superior aos seus semelhantes. É ilegítima qualquer concessão à imagem idealística e romântica do narrador como criatura pressupostamente mais “sensível”, em contato com dimensões do ser mais elevadas, também quando escreve sobre absolutas banalidades quotidianas. (*)

Muito justo e correto, penso, mas é bem provável que você esteja se perguntando: afinal de contas quem é esse tal de Wu Ming e que legitimidade terá para bradar tais “regras”? Se como já observara Benjamin Franklin, o bom exemplo é mesmo melhor sermão, então terei que lhes dizer que as palavras de Wu Ming são muito legítimas. Ele não se trata exatamente de uma novidade (apareceu por volta de 2000) e o fato de ser um escritor anômimo (acredite) não o torna uma inovação (enfim, não será o primeiro nem o último do gênero). Entretanto, Wu Ming pode representar uma forma nova de pensarmos a relação entre autor e “sua” obra, a finalidade dessa relação, a independência dessa obra em relação ao(s) autor(es), e vice-versa, além dos limites no tempo e no espaço das produções artísticas.

Ontem, o poeta Edson Cruz publicou no site Cronópios uma interessante artigo a respeito da noção (diferente?) de autoria que o advento da Web (um ambiente, frise-se, cada vez mais colaborativo) veio problematizar e questionar. O mote para a discussão foi o livro Caiu na Rede de Cora Ronai, lançado ano passado pela editora Agir, onde a autora também se debruça sobre a questão.

Em um rápido chat pelo Windows Live Messenger, eu também tive oportunidade de participar diretamente da análise do tema, respondendo a algumas perguntas de Edson e comentando novidades sobre estudos, pesquisas e implementações técnicas de padrões XML e metadados que estão sendo propostos visando facilitar a criação e a distribuição segura de produções literárias (dentre outras) através da Web. No final do seu artigo, Edson reproduz na íntegra o nosso bate papo.

Penso entretanto que a discussão não deve se esgotar na (importante, claro) questão da segurança das obras (recentemente, foi noticiado o furto dos origniais do sétimo e último volume de Harry Potter), combate à pirataria e ao desrespeito dos direitos autorais em ambiente digital. Nesse âmbito, a tecnologia tende a oferecer, muito em breve, meios para distribuição segura de conteúdos artísticos, comercialmente ou não, via internet. Contudo, também é muito importante estarmos atento à própria mudança de paradigma em relação ao conceito de autoria que um ambiente eminentemente colaborativo como a World Wide Web introduz.

Voltemos ao exemplo de Wu Ming, a “voz” que representa a Wu Ming Foundation. Sabemos que Wu Ming também é um autor, se não moderno, pelo menos diferente pois é um autor “coletivo”. Explico: em 2005, a editora Conrad lançou no Brasil 54, uma novela de aventuras de autoria de Wu Ming, originalmente publicada na Itália, em 2002, pela editora Einaudi.

Aqui, penso que duas importantes perguntas se fazem necessárias. Afinal, o que é um autor? E quais os limites de sua obra?

Wu Ming é o pseudônimo literário de cinco autores italianos, formado em 2000 a partir da comunidade Luther Blissett de Bolonha. Os 5 integrantes da banda de narradores, como se autodenominaram (haverá aqui identifique uma possível referência à banda de rock Gorillaz), partiram do conceito de que suas obras são mais importantes do que suas biografias ou rostos. Estariam errados?

O nome artistico de cada um dos integrantes seria formado pelo número do grupo mais um índice de 1 a 5 (Wu Ming 1, etc.).

Tudo começou com o projeto Luther Blissett Project, um pseudônimo multiusuário, uma identidade em aberto, adotada e compartilhada por centenas de hackers, ativistas e operadores culturais de vários países, desde o verão europeu de 1994. Existiu um Luther Blisset original e este foi um jogador de futebol britânico de origem indo-ocidental. O projeto Luther Blissett adquiriu notoriedade e se tornou uma lenda, uma espécie de “Robin Hood” da era da informação, organizando zombarias, produzindo notícias falsas na mídia, coordenando heterodoxas campanhas de solidariedade a vítimas da repressão. Declararam-se em “guerrilha midiática” contra toda a sociedade do espetáculo e seu braço mais influente, a imprensa. O projeto Luther Blissett enganou grandes corporações da mídia italiana, desvelando ao grande público a fragilidade da “verdade oficial”.

O romance Q é redigido no triênio 1996-98 por quatro membros do grupo bolonhês do projeto Luther Blissett, sendo publicado pela editora Einaudi em março de 1999. Nos anos seguintes é traduzido para o inglês, espanhol, alemão, holandês, francês, português (do Brasil), dinamarquês e grego. Além da complexidade da trama e do seu valor alegórico, o livro desperta interesse também pelo fato de ter sido publicado em uma espécie de fórmula copyleft.

Em janeiro de 2000, um quinto integrante alia-se ao grupo de autores de Q e assim nasce uma nova banda de narradores Wu Ming (que significa “anônimo” em chinês mandarim). Surpreendem-se os que ignoram que a crítica prática da propriedade intelectual seja a pedra angular do projeto Wu Ming que deve ser compreendido simplesmente como um tributo à dissidência e a uma recusa em aceitar o papel do Autor como popstar (não deixe de ler também estas Notas para uma Declaração dos direitos e deveres dos narradores).

(*) Wu Ming 2000. Notas para uma declaração de direitos e deveres dos narradores.
Sem comentários »

Por uma declaração dos direitos e deveres dos narradores

É permitida a reprodução, parcial ou total, da obra e a sua difusão por via telemática para uso pessoal dos leitores, desde que não com finalidade comercial.

Esses são os dizeres publicados nos livros de Wu Ming (Q e 54, ambos em português, podem ser baixados gratuitamente no site da Editora Conrad). Na base do comunicado está o conceito de copyleft inventado na década de 1980 pelo movimento free software de Richard Stallman, atualmente difundido em diversos setores de comunicação e criatividade, da informação científica às artes.

No verão europeu de 2000, a Wu Ming Foundation (leia também o artigo Wu Ming: A revolução sem rosto) publicou a seguinte Notas para uma declaração dos direitos e deveres dos narradores…

Preâmbulo: O que é um narrador e quais são os seus deveres e direitos? É narrador (ou narradora) quem conta histórias e reelabora mitos, conjuntos de referências simbólicas partilhadas - ou de alguma forma conhecidas e, quando for caso disso, questionadas, por uma comunidade. Contar histórias é uma actividade fundamental para qualquer comunidade. Todos contamos histórias, sem histórias não estaríamos conscientes do nosso passado nem das nossas relações com o próximo. Não existiria qualidade de vida. Mas o narrador faz do contar histórias a sua actividade fundamental, a sua “especialização”; é como a diferença entre o passatempo do bricolage e o trabalho de carpinteiro. O narrador desempenha - ou deveria desempenhar - uma função social comparável à do griot nas aldeias africanas, do bardo na cultura celta, do aedo no mundo clássico grego. Contar histórias é um trabalho peculiar que pode trazer vantagens para quem o desenvolve, mas contudo é sempre um trabalho, tão integrado na vida da comunidade quanto o de apagar incêndios, cultivar os campos, assistir os incapacitados, etc.. Por outras palavras, o narrador não é um artista, mas um artesão da narração.

Deveres: O narrador tem o dever, de não se considerar superior aos seus semelhantes. É ilegítima qualquer concessão à imagem idealística e romântica do narrador como criatura pressupostamente mais “sensível”, em contacto com dimensões do ser mais elevadas, também quando escreve sobre absolutas banalidades quotidianas. No fundo também os aspectos mais ridículos e espalhafatosos do ofício de escrever baseiam-se numa versão degradada do mito do artista, que se torna uma “estrela” pelo facto de o considerarem de alguma forma superior aos “comuns mortais”, menos mesquinho, mais interessante e sincero e, num certo sentido, heróico já que suporta os “tormentos” da criação. Pelo facto do estereótipo do artista “angustiado” e “atormentado” suscitar mais sensacionalismo e possuir mais peso do que a fadiga de quem limpa as fossas biológicas, podemos compreender o quão distorcida está a actual escala de valores. O narrador tem o dever de não confundir a efabulação, sua principal missão, com um excesso de autobiografismo obsessivo e ostentação narcísica. A renúncia a estas atitudes permite salvar a autenticidade dos momentos, permite que o narrador tenha uma vida para viver sem que seja uma personagem por interpretar sob coacção.

Direitos: O narrador que cumpre o dever de refutar os estereótipos supracitados tem o direito de ser deixado em paz por quem, ao invés, enche os bolsos propagandeando-os (cronistas de costumes, paparazzi culturais, etc.). Qualquer estratégia de defesa contra as intromissões deve basear-se na não sujeição à lógica. Em suma, quem se quer passar por “estrela”, quem posa para estúpidas sessões fotográficas ou quem responde a perguntas sobre todos os assuntos, não tem o direito de se queixar dessas mesmas intromissões. O narrador tem o direito de não aparecer nos media. Se um canalizador não aparece ninguém lhe pede explicações ou o acusa de snobismo. O narrador tem o direito de não se tornar numa besta amestrada das soirées ou da coscuvilhice literária. O narrador tem o direito de não responder a perguntas que não considera pertinentes (sobre a sua vida privada, preferências sexuais, gostos culinários, hábitos quotidianos, etc.). O narrador tem o direito de não se fingir versado em todos os assuntos. O narrador tem o direito de se opôr, através da desobediência civil, contra as pretensões de quem o tente privar dos seus direitos (incluindo os editores).

(*) Wu Ming, Verão de 2000

Sem comentários »

Próxima Página »