Arquivo de 16 de Janeiro de 2008
As mirabolantes idéias de Bill

Bill Gates: as capas da Time Magazine
No prólogo de Doze Contos Peregrinos, Gabriel García Márquez confessa que nunca previra que o seu trabalho de jornal e cinema mudaria certas idéias que tinha sobre os contos, a ponto de que, ao escrevê-los, tivesse que tomar um grande cuidado e separar “com pinças” suas próprias idéias das que lhe foram dadas pelos diretores durante a escrita dos roteiros.
Bill Gates, o grande personagem da indústria de informática nos últimos 30 anos, aposentado de suas atividades empresariais na última semana, me parece, nunca precisou pensar muito sobre isso. Ao mercado sempre ansioso por novidades, ele respondeu à velocidade da luz.
Seu sistema nervoso digital pareceu sempre funcionar à velocidade do pensamento. Criou e alimentou uma indústria inteira com suas idéias nem sempre bem compreendidas e recebidas pelo mercado. Através da tecnologia digital, criou novos processos. Apostou em métodos mais fáceis na obtenção, compartilhamento e uso da informação.
Bill alimentou o mundo de idéias e sonhos digitais. Suas idéias acabaram mudando as idéias dos outros. E Bill foi uma espécie de “splash screen”, enquanto um mundo inteiramente novo era carregado (em background) na memória da sociedade ocidental: a Era da Informação. Um slogan surgiu da cabeça desse homem de idéias: “informação na ponta dos dedos”. Uma visão que teve no ano de 1990. Era um sonho difícil de ser realizado. Hoje, quem duvidaria?
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Para os não iniciados, “splash screen” é o termo usado para descrever uma imagem que normalmente aparece no centro da tela (com o objetivo principal de distrair o usuário), enquanto um programa está sendo carregado na memória do computador. Cada uma das 8 capas que Bill Gates mereceu da prestigiosa Time Magazine, serviram de “splash screen”, para as várias revoluções sociais proporcionadas pela evolução fantástica da industria da microinformática em tão curto espaço de tempo.
Na primeira capa, em 16 de abril de 1984, ainda com cara de garoto, Gates, o nerd, aparecia equilibrando um disquete de 5 1/4 polegadas. É sua a idéia pioneira de que o software era a mágica dentro da máquina (e isso foi reconhecido há pouco tempo por outro mágico da computação pessoal: Steve Jobs, da Apple). Mais de uma década depois, as vésperas do lançamento do best seller MS-Windows 95, a Microsoft é uma empresa madura. Bill já era considerado o Mestre do Universo. Em 1996, começa a briga pelo domínio da web. Em 1997, a Time Magazine partiu em busca do verdadeiro Bill Gates em uma reportagem de várias páginas, quase uma biografia. Dois anos depois o tema da matéria de capa era o processo antitruste do governo americano contra a Microsoft. Em 2005, o lançamento do Xbox, com a Microsoft brigando para valer pelo mercado de vídeo games. Ainda em 2005, Bill Gates, por seu trabalho filantrópico à frente da Bill & Melinda Gates Foundation é escolhido The person of the year, com Bono Vox (so U2) e Melinda Gates (sua esposa).
Na última semana, Bill Gates, o metamórfico das idéias, se aposentou de suas atividades na indústria de informática. Até quando?
As mirabolantes idéias de Bill
Bill Gates ficou rico tendo idéias. Às idéias de Bill, dá-se o nome de software. Software representa ativos físicos desmateriazados em impulsos elétricos, presentes ou não (os bits). O mundo se desmaterializa cada vez mais rápido, à velocidade do pensamento, lembrando aqui, parte do título de seu livro de 1999, A empresa na velocidade do pensamento (com um sistema nervoso digital), que começava com a profética assertiva: “Os negócios vão mudar mais nos próximos dez anos do que mudaram nos últimos cinqüenta”. Bill acertou na mosca. Como já o fazia há mais de duas décadas.
Gates começou na profissão de ter idéias, no final da década de 60. Era um adolescente. Menos de duas décadas depois era um dos empresários mais ricos dos Estados Unidos. Ficou bilionário na década de 80, ano primeiro da derrocada dos impérios empresariais de tradição. Investiu em quase tudo, de telecomunicações a engenharia genética. Acumulou uma fortuna de 59 bilhões de dólares (segundo a revista Forbes, 2007).
No já longínquo ano de 1995, o lançamento do Windows 95, um ícone dos nossos tempos digitais, em 24 de agosto, dia de São de Bartolomeu, representou o estabelecimento de sua empresa, Microsoft, como a principal da industria de informática.
Alguns anos antes, Bill, sabemos, foi adolescente em Seattle, no noroeste dos Estados Unidos, berço do grunge, “the Seattle sound”, esteve em Harvard nos anos 70 e fundou a Microsoft com Paul Allen em 1975. Abandonou Harvard (recebeu graduação honorária da mesma universidade no ano passado).
Aos 11 anos, a pressão dos pais (um advogado renomado na costa oeste e a diretora da universidade do Estado de Washington) foi parar no divã de um psiquiatra.
Bill sempre foi curioso, inteligente, ambicioso e calculista. A dupla Paul Allen- Bill Gates já programava computadores na época em que The Beatles soavam seus últimos acordes como grupo. Em 1975, fundaram a Microsoft em Albuquerque, Novo México. Passam a desenvolvem programas para ao Altair, um dos primeiros microcomputadores.
Os “computadores para o lar”, começam a chamar a atenção da IBM, gigante do setor de informática, no inicio da década de 1980. A Microsoft, então, é contratada para desenvolver o sistema operacional dos computadores pessoais que a IBM desejava lançar no mercado. Surge o MS-DOS. A IBM pensava hardware. Bill e Paul pensaram em software.
O anátema predileto de Bill Gates, dizem, é: “Esta é a idéia mais estúpida que já ouvi em toda minha vida”. Alguns poucos erros e muitos acertos fizeram da Microsoft a maior marca global nestes primeiros anos do século XXI (Coca-Cola em segundo, IBM em terceiro, segundo a revista Business Week).
O mercado de software também se desmaterializaria com a internet. Disquetes, CDs, DVDs ficam fadados aos museus da história da informática. Os dados fluem pela rede em velocidades cada vez maiores. As redes também se desmaterializam através das tecnologias “wireless”.
A tecnologia do toque, começa a aposentar teclados e mouses. A web semântica, amparada nos conceitos de mineração de textos, linguagem natural e taxonomias batem à nossa porta.
Interagiremos com as máquinas não somente pelo tato, mas por todos os sentidos. A era do computador sinestésico chegou (hoje, leio no Globo, que as pesquisas do neurologista brasileiro Miguel Nicolelis, da Duke University, sobre o controle de movimentos complexos de um robô através de atividades cerebrais, já começam a dar interessantes resultados).
Imagino, penso que não seria absurdo, o dia em que do pensamento dos autores, automaticamente, de forma quase mágica (como sugere a terceira lei de Arthur Clarke), as suas histórias se materializarão, como hologramas, em um ambiente de realidade virtual avançado. Creiam, isso pode ser apenas uma questão de tempo.
Os Hologramas
Em Santos Dumont número 8, romance que lancei em 2006, pela editora Universo dos Livros, imaginei o seguinte diálogo entre o personagem Abayomi, um “quase” historiador, e alguns autores (não sabemos se através de uma mediunidade ou de uma tecnologia avançada que lhe permitia resgatar os pensamentos, a energia, que os autores deixaram em suas obras):
Santo Agostinho: E os que narram fatos passados, sem dúvida não os poderiam veridicamente contar, se os não vissem com a alma. Ora, se esses fatos passados não existissem, de modo nenhum poderiam ser vistos. Existem, portanto, fatos futuros e pretéritos.
Abayomi: Existem e estão dentro de nossas cabeças. É difícil de compreender, pois, ainda não sabemos explicar como o cérebro pode entender o próprio cérebro. Mas, definitivamente, acho que certos dias podem durar para sempre. Assim como certos pensamentos adquirem vida própria.
Martin Heidegger: Nunca chegamos aos pensamentos. São eles que vêm.
Abayomi: Eles vêm e nós iremos aonde eles nos levarem. Acho que já escutei isso antes. Talvez enquanto dormia e sonhava.Guimarães Rosa: Tenho de segredar que, embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica, minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de avisos e pressentimentos…
Abayomi: Costumava escutar da Ariadne que o que cria a fé no milagre é a idéia de que deve haver um milagre. Mas e se as coisas não acontecerem exatamente nessa ordem?
Guimarães Rosa: Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido, por forças ou correntes muito estranhas.
Abayomi: Que toda história tem um começo, um meio e um fim, pode ser certo ou pode ser quase. Exatamente em que ponto entramos ou saímos delas, eis a pergunta que não se cala ou não se fala, e se fala, onde quer que seja, que ela esteja, benfazeja, aqui mesmo ou mesmo não, está, estará ou estava…
Machado de Assis: Lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o pretérito.
Abayomi: Perfeito. Mais que perfeito. Soubera que estávamos nos aproximando, era um pressentimento, um pensamento, ido e vivido, talvez, quem sabe? Bem, mas isso já seria, definitivamente, uma outra história, ou, quem sabe, a mesma, continuada no futuro, ou no passado?
O diálogo de Abayomi, em Santos Dumont número 8, continuava com as idéias e o “espírito” de Julio Verne. Talvez, não sejam tão absurdos assim. Aguardemos os próximos anos.
Julio Verne: O mundo do futuro só apreciará como documentos psicológicos ou sociais dos nossos tempos, as coleções de jornais e de revistas. Também se interessará um pouco pelas histórias fantásticas, científicas, na forma de um Edgar Poe, de um Volhiers de L’Isle Adam, de um Wells e de um, Julio Verne.
Abayomi: A realidade de hoje é a ficção de ontem, as portas da percepção que se abriram. Leio, penso, escrevo, logo existe! O tempo todo. Sempre. Está tudo linkado, ligado, interligado. Inclusive, acho que foi por isso que, desde o momento primeiro em que coloquei os pés na Biblioteca Nacional, me senti como se estivesse novamente em casa…
Nas mirabolantes idéias de Bill, dos ficcionistas e dos desenvolvedores de software, a própria desmaterialização do mundo parece sugerir que, em breve, retornaremos à casa. Mas que casa é essa que não reconhecemos? Ao mesmo tempo, uma casa que jamais deixamos de recordar de uma sutil lembrança afogada no inconsciente coletivo? Uma estranha variável booleana que pode assumir mais de dois valores.
Em 2007, meses antes de sua aposentadoria (leiam o artigo Saravá Mr. Bill Gates! no blog PontoLit) Bill Gates profetizou “A leitura será completamente online”. Leremos tudo online e essa leitura será completa e interativa.
Arthur C. Clarke, autor de 2001: uma odisséia no espaço, estava certo: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica”. O homem, sempre quis ser uma espécie de Deus. Agora, está próximo. Eis aonde a nossa idéia de futuro (por bem ou por mal) nos trouxe.
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