Machado de Assis, o enxadrista (PARTE I)

Leia nesta parte do ensaio:
- Uma abertura machadiana
- O primeiro torneio de xadrez no Brasil
A revista Ilustração Brasileira, edição 24, de 15 de junho de 1877, publicou o primeiro problema enxadrístico composto por um brasileiro: “Brancas jogam. Mate em dois lances”. Seu autor foi Machado de Assis. O desfecho (a saber, 1. Bb5, 1. e5, 2. Rf7#) é considerado elegante.
Uma abertura machadiana
Aqui, jogaremos xadrez. A abertura fora do comum se justifica. Os movimentos iniciais determinam o curso de uma partida e por isso, na teoria enxadrística, são objeto de intensa investigação. Aqui, também seremos investigadores. Uma importante característica da personalidade de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) ainda é pouco conhecida (porque pouco estudada): o inesgotável escritor, criador de alguns dos maiores clássicos de nossa literatura, foi um grande e dedicado enxadrista.
O xadrez é citado na obra de Machado em contos como Questão de vaidade, Astúcias de marido, História de uma lágrima, Rui de Leão, Qual dos dois, Antes que cases e Quem boa cama faz. Machado ainda faz referência ao jogo em crônicas, no romance Iaiá Garcia e na novela A cartomante.
Entusiasta do xadrez, o autor jogou partidas amistosas e disputou torneios. A qualidade de seu jogo, examinada através do estudo de suas partidas, e a facilidade com que solucionava problemas enxadrísticos publicados nos periódicos da época, confirmam a sua força como jogador. Diante de tanta dedicação, naturalmente, surge uma pergunta: o xadrez ajudaria a explicar o gênio de Machado de Assis? Analisemos as peças no tabuleiro e executemos o próximo movimento.
O primeiro torneio de xadrez no Brasil
A Revista Musical e de Belas Artes, em seu número 2, de 17 de janeiro de 1880, publicou uma nota sobre o primeiro torneio de xadrez disputado no Brasil. Participavam da disputa, seis dos melhores amadores da Corte. Cada um jogaria quatro partidas com o outro e, ao final, quem obtivesse o maior número vitórias seria considerado o vencedor (partidas empatadas contariam meio ponto para cada jogador). As primeiras parciais do torneio indicavam: Machado de Assis, 6; Arthur Napoleão, 5 1/2; Caldas Vianna, 4 1/2; C. Pradez, 4; Navarro, 1; Dr. Palhares, 1. A mesma revista publicaria as parciais do torneio até o mês de Abril do mesmo ano quando Machado de Assis aparecia na terceira colocação, atrás apenas de Arthur Napoleão (líder) e Caldas Vianna.
João Caldas Vianna, primeiro grande enxadrista brasileiro e idealizador da Variante Rio de Janeiro na abertura Ruy Lopez, em artigo publicado na precursora revista Xeque-Mate, em maio de 1925, relembrou o torneio:
“… assim foi que, em janeiro de 1880, Arthur Napoleão pode reunir em sua casa na Rua Marquês de Abrantes (Rio de Janeiro), um grupo de admiradores para um pequeno torneio, no qual tomou parte Machado de Assis, a mais pura glória das letras brasileiras. Esse torneio de família jamais terminaria, mas merece ser assinalado como o primeiro ensaio de armas”.
A Plínio Doyle, bibliófilo e memorialista, incomodava que pouco se estudasse o Machado de Assis enxadrista. É dele um artigo de 1958 para o primeiro número do Boletim da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis, contendo as precursoras linhas desse estudo. O artigo traz também as anotações de duas partidas de Machado, uma contra Arthur Napoleão e a outra contra C. Pradez.
O estudo do Machado de Assis jogador de xadrez (o “jogo dos silenciosos, dos calados, dos metidos consigo”) é importante, pois pode acenar com novas possíveis (e inusitadas) abordagens de estudo da obra do Bruxo do Cosme Velho. Quanto mais a obra se afirma (a segunda fase da obra de Machado), mais o autor torna-se um homem retraído, calado, metido consigo, como Bento Santiago, narrador de Dom Casmurro. A discrição e a obstinação de Machado são características de enxadrista.
Leia na segunda parte deste ensaio:
- Xadrez: o livro, o mágico e a máquina
- Caíssa, a deusa literária do xadrez
- Sobre escritores e enxadristas
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