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As Crônicas Tricolores: Porque somos tricolores desde antes de Cristo

Saudações tricolores. Há seis mil anos, diria Nelson Rodrigues, estava escrito que o Fluzão desencantaria hoje, um dia de chuva insistente, lavando a alma de sua imensa torcida. Depois do susto do último sábado os “idiotas da objetividade” começaram a alardear que Botafogo e Flamengo estavam um passo à frente, pois os seres humanos acreditam mais no equívoco do que na verdade. Calçadas as sandálias da humildade, a máquina tricolor, revisada, começa a engrenar. E como diria Januário de Oliveira, é disso que o povo gosta!

Dodô, o artista dos belos gols, desencantou. Gols, Dodô não os faz, pinta-os como obras de arte. A de hoje, foi a primeira de muitas com as quais construiremos a galeria tricolor de 2008. Washington (2), Luiz Alberto e Leandro Amaral completaram o placar de 5 a 1 contra o bravo Volta Redonda.

Hoje, não acompanhei o jogo (o que é raro). Mas, não posso me furtar a tecer alguns comentários. E a respeito disso, me recordo de uma certa história sobre Nelson Rodrigues escutada da boca de seus amigos.

Não sei se vocês sabem, mas Nelson escreveu muitas de suas crônicas futebolísticas (li algumas no final da década de 1970, no Jornal dos Sports) sem sequer assistir aos jogos que comentava. Por isso, aquele jogos foram melhores pela pena (ou máquina, como queiram) de Nelson do que com a bola rolando no gramado.

Perguntado, desde quando torcia pelo Fluminense, Nelson respondeu: “eu era tricolor antes de Cristo.” Eu também, Nelson. Eu também. Vivo, Nelson teria 85 anos. Vivo ou morto, não importa, sabemos que isso é apenas questão de opinião. Nelson, que sabia das coisas, já dizia em uma crônica sobre a decisão do carioca de 1963: “os vivos sairam de suas casas e os mortos de suas tumbas para assistir o maior FLA x FLU (eu prefiro FLU x FLA) de todos os tempos”.

Basta olharmos com alguma atenção e (isso é certo) poderemos ver o “Sobrenatural Rodrigues”, translúcido, em uma daquelas cadeiras do novo Maraca. Depois dos 90 minutos, ele não seguirá pela rampa, mas pegará um elevador especial, panorâmico, que o levará ao firmamento. Antes, no caminho, o aguçado observador dos costumes, se sentará em uma nuvem, acenderá um cigarro e de frente para sua máquina de escrever sonhos, antecipará a trajetória vitoriosa do Flu rumo ao título mundial em Tóquio (título que, concluiria Nelson, é, pois, uma fatalidade de 60 séculos). Porque isso, Nelson sabia (e nós concordamos), já estava escrito há seis mil anos.

Salve Nelson! Salve Fluzão!

Tijuca, 29 de janeiro de 2008



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