pontolit

Arquivo de Janeiro de 2008

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Como uma coisa acaba levando a outra coisa e hoje, estreamos no PontoLit As Crônicas Tricolores, lembro-me aqui da expressão que muito escutei de Juarez Soares (o comentarista esportivo), e através dela, tentarei buscar uma resposta à pergunta estampada hoje na capa do Segundo Caderno de O Globo.

A máteria é assinada por André Miranda e Miguel Conde e informa que entre os 10 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2007, apenas um é brasileiro. Amparo-me então, leitor amigo, na experiência de Juarez: Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa, repito.

Aspectos muito importantes foram lembrados na matéria, mas faltaram outros (tão importantes quanto os primeiros). Sabemos que no Brasil, os livros estrangeiros ganham mais atenção de divulgação. O marketing, como lembra Rui Castro na matéria, é realmente decisivo. Um dos motivos para que isso ocorra (este lembrado pela crítica literária Beatriz Resende) é que o investimento feito na aquisição de um título estrangeiro precisa ser reposto. Justo. Justíssimo.

Infelizmente, a matéria não comenta sobre a falta de investimento em projetos que permitam o aparecimento de novos autores nacionais, por exemplo, e mais espaço para a divulgação da literatura multifacetada feita no Brasil. É importante cuidar da base. Um mercado “desenvolvido” (mesmo um de “mais vendidos”) advém de planejamento, investimento e aferição periódica. Tempo seja dado ao tempo. É preciso também certa coragem para se apostar no que pode ser diferente do establishment. Idéias muito arraigadas, acabam por ser entrópicas, fecham em si mesmas e tendem à morte.

Façamos uma (breve) analogia com um outro mercado que passou por profundas mudanças nos últimos anos e onde quem não se adaptou às novas realidades (e elas mudam à velocidade da luz) acabou fora do jogo: o mercado de informática. Quantas das maiores empresas da década de 1970 continuam no grupo das maiores neste início de século XXI? Google, Microsoft, Apple, entre outras, desbancaram muitos dos pesos pesados (os elefantes brancos) daquela época. Trinta anos é muito tempo? Pense então nas maiores da década de 90, o resultado será o mesmo. E, dia após dia, surgem outras “novas grandes idéias” e a dança das cadeiras (e de novos IPOs na NASDAQ) continua. O mercado é elástico e as empresas são idéias. O ativo de maior valor para uma empresa hoje (seja uma internet co. ou uma editora) é o capital intelectual. É nele que os investimentos devem ser feitos: nos escritores, por exemplo.

Vocês poderiam me retornar, retoricamente, a contra-argumentação de que “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”… O mercado de informática é um, o literário é outro. É justo. Aceito. Mas, peço tréplica: o mundo mudou e não é apenas no “reino encantado e virtual” das empresas de informática. Hoje, as informações fluem com mais facilidade. Elas estão na ponta dos dedos. Existem muitos (mas coloquem aí muitos mesmo) escritores que jamais foram citados nos cadernos de literatura (e que já estão na batalha há muito tempo), desconhecidos pelo grande público, mas que agora descobrimos no ciberespaço.

Para que possam “dar retorno”, é claro, precisam, antes, serem conhecidos pelo grande público. E isso requer investimento. Não consigo perceber as editoras (pelo menos os grandes “players” do mercado nacional) demonstrando o dinamismo (necessário) de quem esteja muito disposto a investir seriamente na renovação e desenvolvimento da literatura nacional (algo que deveria ser considerado, por elas, questão de sobrevivência).

Agora, vamos à internet. Ela, meus caros, é muito mais do que uma “nova onda do imperador”. Isso aqui não é panacéia. Olhem com calma o que se produz no ciberespaço e saibam identificar o que é consistente. Inclusive, se vocês observarem bem, isso aqui tem tudo para ser o futuro do mercado editorial. Basta acompanhar com atenção os temas discutidos em conferências no exterior (como a Digital, Life, Design e a Tools of Change) e o que as empresas de informática (olha elas aí de novo!) estão produzindo com foco no mercado de “e-reading”.

Retornando ao artigo de O Globo. A pergunta (Cadê os nacionais?) é válida, deveria, inclusive, ser retornada aos próprios cadernos literários brasileiros que parecem viver de ondas (que foram bem lembradas na matéria).

A matéria em si, penso, não consegue responder à pergunta que sugere, mas pelo menos serviu para divulgar que a (simpática) Thrity Umrigar estará no Brasil lançando seu A doçura do mundo. Obrigado por nos avisarem. Sugiro, porém, que voltem ao tema (que é muito importante) com maior foco no problema sobre o qual o título da máteria se constrói.

Já comentei aqui no Pontolit que na contramão dessa (preocupante) história existem editoras brasileiras que se internacionalizam. Um exemplo é a Digerati que está entrando no imenso mercado indiano. O romance Santos-Dumont Número 8 inaugurou a linha de romances da editora.

O Santos Dumont Número 8 está (com muito trabalho e sacrifício) em praticamente todas as grandes livrarias desse país e vende razoavelmente bem, mesmo se tratando da estréia do autor e apesar de não termos conseguido sequer uma notinha em um caderno literário (aqui no Rio, pelo menos, todos receberam gratuitamente o livro). Que fosse uma resenha positiva ou negativa, pouco importa, a questão maior é que assim como o autor de Santos-Dumont Número 8 (aqui, pelo menos, eu ainda posso divulgá-lo), existem milhares de novos autores por aí (sim, meus caros, já repararam no tamanho desse país, que não se restringe apenas a Rio e São Paulo?), criando, experimentando, revolucionando, mas que não conseguem dar o próximo passo, simplesmente, por falta de boa vontade de alguém escutar o que gritam (e que se encaixa bem na pergunta da matéria do Segundo Caderno): “Ei, nós estamos aqui! Olhem, aqui! vocês não conseguem nos escutar? Estão surdos?”

Bem, o problema, talvez, é que já não falemos mais a mesma língua. O que pode representar uma crise, claro, mas também (basta pensarmos com otimismo) uma oportunidade (de reaprendizagem). A IBM na década de 50 criou o slogan Think! Décadas depois, a Apple veio com o Think Different! Agora, começado para valer o século XXI, esperamos que o mercado editorial brasileiro repense o seu próprio processo de pensar.

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As Crônicas Tricolores: Porque somos tricolores desde antes de Cristo

Saudações tricolores. Há seis mil anos, diria Nelson Rodrigues, estava escrito que o Fluzão desencantaria hoje, um dia de chuva insistente, lavando a alma de sua imensa torcida. Depois do susto do último sábado os “idiotas da objetividade” começaram a alardear que Botafogo e Flamengo estavam um passo à frente, pois os seres humanos acreditam mais no equívoco do que na verdade. Calçadas as sandálias da humildade, a máquina tricolor, revisada, começa a engrenar. E como diria Januário de Oliveira, é disso que o povo gosta!

Dodô, o artista dos belos gols, desencantou. Gols, Dodô não os faz, pinta-os como obras de arte. A de hoje, foi a primeira de muitas com as quais construiremos a galeria tricolor de 2008. Washington (2), Luiz Alberto e Leandro Amaral completaram o placar de 5 a 1 contra o bravo Volta Redonda.

Hoje, não acompanhei o jogo (o que é raro). Mas, não posso me furtar a tecer alguns comentários. E a respeito disso, me recordo de uma certa história sobre Nelson Rodrigues escutada da boca de seus amigos.

Não sei se vocês sabem, mas Nelson escreveu muitas de suas crônicas futebolísticas (li algumas no final da década de 1970, no Jornal dos Sports) sem sequer assistir aos jogos que comentava. Por isso, aquele jogos foram melhores pela pena (ou máquina, como queiram) de Nelson do que com a bola rolando no gramado.

Perguntado, desde quando torcia pelo Fluminense, Nelson respondeu: “eu era tricolor antes de Cristo.” Eu também, Nelson. Eu também. Vivo, Nelson teria 85 anos. Vivo ou morto, não importa, sabemos que isso é apenas questão de opinião. Nelson, que sabia das coisas, já dizia em uma crônica sobre a decisão do carioca de 1963: “os vivos sairam de suas casas e os mortos de suas tumbas para assistir o maior FLA x FLU (eu prefiro FLU x FLA) de todos os tempos”.

Basta olharmos com alguma atenção e (isso é certo) poderemos ver o “Sobrenatural Rodrigues”, translúcido, em uma daquelas cadeiras do novo Maraca. Depois dos 90 minutos, ele não seguirá pela rampa, mas pegará um elevador especial, panorâmico, que o levará ao firmamento. Antes, no caminho, o aguçado observador dos costumes, se sentará em uma nuvem, acenderá um cigarro e de frente para sua máquina de escrever sonhos, antecipará a trajetória vitoriosa do Flu rumo ao título mundial em Tóquio (título que, concluiria Nelson, é, pois, uma fatalidade de 60 séculos). Porque isso, Nelson sabia (e nós concordamos), já estava escrito há seis mil anos.

Salve Nelson! Salve Fluzão!

Tijuca, 29 de janeiro de 2008

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