Arquivo de 4 de Fevereiro de 2008
Machado de Assis, o enxadrista (PARTE II)

OBS: Acesse aqui a primeira parte deste ensaio.
Leia na segunda parte deste ensaio:
- Xadrez: o livro, o mágico e a máquina
- Caíssa, a deusa literária do xadrez
- Sobre escritores e enxadristas
Xadrez: o livro, o mágico e a máquina
No tabuleiro, sabemos, vence-se de maneira fácil e categórica, induzindo o adversário ao erro. O enxadrista Rudolf Spielmann ensinou que o xadrez deve ser jogado na abertura como um livro, no meio-jogo como um mágico e no final como uma máquina. No prefácio de A aventura do xadrez, Edward Lasker é taxativo: “o xadrez deve limitar o elemento sorte e acentuar a importância do planejamento e, como a vida, ensinar a coordenação entre razão e instinto”. Lasker também enfatizou o elemento estético: “em uma série de movimentos sutis pode ser encontrada a mesma emoção proporcionada por um belo teorema”. No xadrez triunfam razão e lógica. Mas, admitamos suas incertezas, seus imprevistos e, antes de tudo, seus enigmas.
O Oxford Companion to Chess cataloga cerca de 1.330 aberturas e variantes. Algumas delas são consideradas “ciladas de abertura”. O adversário descuidado pode ser ludibriado por uma delas e perder uma partida já nos primeiros movimentos. Segue-se à abertura (de emboscada ou não), uma defesa, e por uma intercalação de movimentos posicionais e táticos do intelecto, a construção de uma partida, ou de uma narrativa, porque a abertura de certas narrativas também faz lembrar esse artifício enxadrístico. O xadrez é um dos jogos mais populares do mundo. Pertence à mesma família do Xiangqi e do Shogi e, segundo os historiadores do enxadrismo (xadrezismo em Portugal), é originado do Chaturanga, praticado na Índia no Século VI.
No xadrez, um movimento deve ser conseqüência lógica do anterior e deve antecipar o seguinte. Deve-se, dentre as várias possibilidades, escolher uma única jogada: manter-se concentrado e imóvel na cadeira, imaginar e processar um número de movimentos antecipados, calcular as consequências e só movimentar a peça após exaustiva análise de lances possíveis (após encontrar um lance apropriado, antes de executar a jogada, procurar uma alternativa ainda melhor).
O adversário é um reflexo no espelho. O apelo irresistível à decifração de significados ocultos, justifica a atração que o xadrez exerce renovadamente sobre os escritores. Vários são os autores que contemplaram o xadrez em suas obras (uma demonstração da sua importância para a literatura).
O xadrez potencializa qualidades como a atenção e a concentração, o julgamento e o planejamento, a imaginação e a previsão, a memória, a vontade de vencer, a paciência e o autocontrole, o espírito de decisão e a coragem, a lógica matemática, o raciocínio analítico e a síntese, a criatividade, a inteligência, o estudo e o interesse por línguas estrangeiras. Em uma partida de xadrez, são exercitadas duas visões de grande importância para o desenvolvimento da capacidade de abstração: a visão imediata e a visão mediata.
Savielly Tartakower, o mais espirituoso dos escritores de xadrez, criador da Abertura Catalã, dividiu os jogadores em 4 categorias: os jogadores fracos que não sabem que são fracos: são ignorantes e devemos evitá-los; jogadores fracos que sabem que são fracos: são inteligentes, devem ser ajudados; jogadores fortes que não sabem que são fortes: são modestos e devem ser respeitados; jogadores fortes que sabem que são fortes: são sábios, portanto, devemos segui-los.
Caíssa, a deusa literária do xadrez
Jesús Gonzáles Bayolo, Presidente do Comitê de História da Federação Cubana de Xadrez, confirmou na conferência intitulada El Ajedrez es La piedra del intelecto (título inspirado nas palavras de Goethe) que o enxadrista não esquece de Caíssa, a ninfa da mitologia grega que é considerada a Deusa do Xadrez.
A relação entre Caíssa e o xadrez nasceu da cabeça do poeta Sir Willian Jones que, em 1763, escreveu o poema Caíssa ou o jogo de xadrez inspirado no Scacchia Ludus (Jogo de Xadrez), um longo poema medieval escrito em latim por Marcus Hieronymus Vida em 1513.
No poema de Sir Willian Jones, Marte, o deus da guerra, convence o deus dos esportes a inventar um jogo para distrair o coração de Caíssa, para que pudesse conquistar o seu amor.
Caíssa foi publicado pela primeira vez em 1773, ganhando popularidade na França. Ao ser republicado na Le Palamède, em 1836, primeira revista sobre xadrez que se tem conhecimento, Caissa ficou conhecida como a deusa do enxadrismo, e também como uma forma poética de se referir ao jogo e uma expressão que enseja boa sorte. O grande mestre do xadrez Garry Kasparov, campeão do mundo de 1985 e 2000, em seu livro My Great Predecessors, usa a expressão “Caíssa estava comigo” – em especial quando a situação de jogo é incerta. A literatura e o xadrez parecem mesmo caminhar lado a lado e se complementarem.
Enxadristas serão encontrados em outras modalidades da cultura e da arte e várias personalidades já estabelecidas nas artes e nas ciências incursionaram no xadrez, certamente pela soma de paixão, psicologia, filosofia e lógica intrínsecas ao jogo. Cientistas como o astrônomo italiano Galileu Galilei, os filósofos Baruch Spinoza e Denid Diderot, o matemático alemão Gottfried Wilhelm von Leibnitz, o historiador polonês Joachim Lelewel, o químico e inventor russo Dmitri Mendeleev, Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II, e os compositores clássicos Beethoven e Chopin.
Tartakower, ao ser perguntado sobre quem teria sido o maior enxadrista de todos os tempos teria respondido que se o xadrez é uma ciência, o melhor é Capablanca (1888-1942) , cubano, campeão mundial de 1921 a 1927; se o xadrez é uma arte, o melhor é Alexander Alekhine (1892-1946) , russo, campeão mundial entre 1927-35 e 1937-46; se o xadrez é um esporte, o melhor é Emanuel Lasker (1868-1941), filósofo e matemático alemão, campeão mundial de 1894 a 1921.
Alekhine, o grande mestre campeão mundial de xadrez, para quem o xadrez era uma arte, afirmava que para competir no xadrez, seria preciso, antes de tudo, “conhecer a natureza humana e compreender a psicologia do contrário”. Machado parece ter percebido isso e trouxe o xadrez para dentro de sua obra.
Sobre escritores e enxadristas
Porque aqui jogamos xadrez, não seremos surpreendidos pelo fato do xadrez ter seduzido Machado de Assis, um autor que centrou seu interesse na sondagem psicológica e que como poucos buscou compreender os mecanismos que comandam as ações humanas, fossem elas de natureza espiritual ou decorrentes da ação que o meio social exerce sobre cada indivíduo, tudo temperado com uma profunda reflexão.
Como o poeta romântico francês Alfred de Musset, Machado de Assis foi problemista e publicou vários de seus enigmas de xadrez em periódicos nas décadas de 1870 e 1880, além de manter rica correspondência com as seções especializadas desses periódicos e ocupar posição destacada nos círculos enxadrísticos do tempo do Império.
Ao longo da história, tem sido grande o interesse pelo jogo de xadrez entre os que abraçam o ofício das letras. A lista de escritores-enxadristas inclui Asimov, Baum, Lewis Carroll, Cervantes, Dickens, Dostoievski, Conan Doyle, Goethe, Ibsen, Kipling, Sinclair Lewis, Mailer, Melville, Nabokov, Orwell, Poe, Puchkin, Shakespeare, Shaw, Tolstoi, Vonnegut, Wells, Yeats, Zweig, Stevenson, Balzac, Rushdie e Amis.
A pergunta é eterna e filosófica: Mas afinal de contas, o que é o xadrez? A resposta não será exata, nem unânime, e, certamente, nos levará a interessantes e enriquecedores labirintos de idéias, bifurcações tão numerosas quanto a quantidade de posições legais das peças sobre o tabuleiro.
Estima-se que esta quantidade esteja situada entre as potências de 1043 e 1050 com uma árvore de complexidade de aproximadamente 10123 (a árvore de complexidade do xadrez foi determinada pela primeira vez pelo matemático norte-americano Claude Shannon, grandeza hoje conhecida como o Número de Shannon).
Por que o xadrez desperta esse fascínio nos escritores? O xadrez tão retratado nas artes, a metáfora por excelência do combate e, com mais razão do que a priori se possa imaginar, da própria vida: o xadrez é imaginação e memória, um símbolo de supremacia da lógica, ou ainda, no espírito dos moralistas medievais, uma alegoria da vida social.
O romancista alemão Johann Wolfgang Goethe o considerava a pedra de toque do intelecto, uma imagem que ainda continua forte nos dias de hoje. Para Shakespeare, era um jogo honrado. A Tolstoi, agradava por ser um bom descanso e fazer trabalhar a mente de uma forma muito especial. Cervantes o percebeu semelhante à vida.
Machado de Assis, na crônica Antes que cases, de 1875, discorda do espanhol: “a vida não é um jogo de xadrez”. Depois, em Iaiá Garcia, romance de 1878, parece voltar atrás ao atribuir à personagem principal duas das qualidades necessárias no xadrez e na vida: “… vista pronta e paciência beneditina, qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas”.
Benjamin Franklin, autor de The Morals of Chess, de 1779, escreveu “O xadrez não é uma fútil distração; permite desenvolver em nós as qualidades do espírito mais necessárias à vida”. A sensibilidade de Ivan Turgueniev, novelista russo, sintetizou com naturalidade o que parece ser inevitável para tantos escritores: “o xadrez é uma necessidade tão imperiosa como a literatura”.
Leia na terceira parte deste ensaio:
- A influência de Arthur Napoleão
- O enxadrista Machado de Assis
- Dom Casmurro: uma partida de xadrez