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As Crônicas Tricolores: O Geômetra Tricolor

O mundo desabava em uma chuva torrencial sobre o Estádio Mario Filho e as luzes se apagaram. Por mais 10 minutos, o Maracanã ficou às escuras. Era fácil (e enganosa) a associação entre chuva e apagão. Poucos enxergaram (literalmente) que era o apagar das luzes que antecederia o espetáculo. Não existe melhor definição para o que se viu no segundo tempo do Flu x Fla de ontem. Abertas as cortinas já encharcadas, os artistas tricolores iniciaram seu show.

O Flu , como o My Chemical Romance (que testará o calor do Rio de Janeiro e da platéia carioca na próxima sexta-feira), parece mesmo estar em turnê pelos gramados. Tricolores não podem perder à série de inesquecíveis shows.

Thiago Neves só não fez nevar. Água, granizo e belos gols sobraram no Maracanã. Cabisbaixos, na saída do estádio, os rubros-negros, que enxergam na camisa de seu time um manto sagrado, lamentavam resignadamente o que nas palavras de Paulo César Vasconcelos, da SporTV, foi um verdadeiro sapeca-iaiá do Flu sobre o Fla: “Se Deus é brasileiro, certamente é flamenguista e essa chuva torrencial foram suas lágrimas”.

Isso é um exagero, claro, afinal o jogo era apenas um amistoso e (ora, isso todos sabemos) Deus é tricolor de coração. Digo e provo: João de Deus, outro grande tricolor, sempre que invocado por nossa grande torcida, sempre intercede com sucesso junto ao Criador. Certamente, isso demonstra a simpatia que Ele tem por João e pelo Fluminense. Logo, por silogismo claro e irrefutável, Deus é tricolor.

O jogo foi um amistoso (de luxo), mas eu lhes pergunto, e daí? O Fluzão completou 18 jogos invictos no Maracanã, é o único invicto e ainda goleou o Flamengo. Ótimo para começar o ano, não? A máquina engrenou. Foram 10 gols nos 2 últimos jogos. Os acidentes de percurso acontecem, claro, e Renato, o comandante, aproveita esses ensinamentos para ajustar as peças da Máquina que segue desfilando a técnica e a arte do futebol competitivo sim, mas bem jogado também.

Cobrando faltas, Thiago Neves é um geômetra. Parece arremessar a bola com as mãos, calculando milimetricamente as distâncias, como se desenhasse sua trajetória com um compasso, Thiago coloca a esfera onde quer. No segundo gol de ontem, colocou a bola na gaveta direita de Diego, e ela descreveu uma curva perfeita no espaço, como no contorno arredondado das belas obras de Niemeyer, e pousando cuidadosamente, carinhosamente, amorosamente nas redes rubro-negras, comprovando, como em uma fórmula matemática, o “Teorema de Thiago”, que afirmara durante a semana que estava “afim de jogo”. Agora, sabemos o que isso pode significar: Thiago cortejava as redes adversárias (sendo plenamente correspondido).

O terceiro gol de Thiago, o geômetra, foi um desenho artístico. Thiago pegou a bola na lateral esquerda, eram 33 minutos do segundo tempo, tabelou com Cícero, iniciou o desenho de uma diagonal na direção do gol adversário, deixando, na velocidade de seu traço, seu xará rubro-negro, Thiago Salles, para trás, deu uma “caneta” monumental em Egidio, e deslocou o goleiro Diego com a categoria de um toque de mestre, que mais parecia a assinatura do artista sobre sua obra.

Lá atrás, Fernando Henrique mostrava um repertório variado e criativo de grande defesas, revivendo sob a chuva (ou lágrimas da nação rubro-negras, tanto faz) forte, a mística da camisa número 1, que já pertenceu a Marcos Carneiro de Mendonça, Castilho, Paulo Goulart e Paulo Victor.

A torcida tricolor, um show a parte, ao ver o time do Fla (com todo respeito) “cair de 4”, ensaiou, descontraidamente, a coreografia da “dança do creu”. Os tricolores, como lembraria o radialista Afonso Soares, estão “mais felizes do que pinto no lixo”.

Agora, muitos repetem (até injustamente com os outros bravos participantes do campeonato), começa, com as semifinais, a disputa para valer entre os 4 grandes, inédita desde que esse sistema foi adotado para a Taça Guanabara.

O Flu, calça as sandálias da humildade, e enfrenta a Estrela Solitária de General Severiano, um time, diga-se de passagem, bem montado por Cuca. Os 3 tenores estarão no palco do Maracanã.

No final do jogo de ontem, depois do temporal, quase que o tempo também fecha em campo. Obina pode ser “melhor” do que Samuel Eto’o (não discutiremos os critérios de avaliação da apaixonada torcida rubro-negra), mas Anderson, ao levantar a bola, matá-la na coxa e dar um chutão para o ataque, jamais poderia ser acusado de desrespeito à imensa, fiel, fanática e fantástica torcida rubro-negra. Obina, me parece, quis jogar para a torcida, mas preferiu fazê-lo depois do apito final.

O Flu venceu e convenceu. O Sobrenatural Rodrigues certamente agradeceu o espetáculo em sua crônica celestial de hoje. O sol, temendo ser ofuscado pelo brilho dos artistas tricolores, resolveu, novamente, dar o ar de sua graça nos céus da Cidade Maravilhosa. Vida que segue.

Ouça na narração de José Carlos Araújo o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto gols da goleada tricolor.



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