pontolit

Arquivo de 18 de Fevereiro de 2008

(Revisando) O Oneironauta (*), por C. S. Soares (versão beta)

Muitas vezes o ponto em que se cruzam o sonho e a vigília, a vida e a morte, o real e a ilusão, é representado pelo ato de ler. – Ricardo Piglia.

ISSO FOI UM SONHO? É a pergunta que não me sai da cabeça em tais situações (recorrentes). Normalmente, acontece assim, dessa maneira mesmo: bem próximo ao fim do pesadelo, ofegante, encharcado de suor, aturdido, agarrado às bordas da cama, eu acabo admitindo que todas aquelas imagens (que, fantasmagoricamente, ainda se dissipam) eram apenas cenas e cenários de um sonho fantástico, segundos depois, um pouco mais aliviado, oneironauta de volta à Terra, abro os olhos e repito, apenas para manter a razão, Isso foi apenas mais um sonho e pronto!

Entretanto, confesso, às vezes, tenho dúvidas.

Não é meu costume, durante um sonho, me questionar se aquilo que sonho é apenas um sonho, sabe? Muito menos, quando acordado, fico me beliscando ou repetindo para mim mesmo (como em uma conversa íntima com meu doppelganger), veja só, eu estou acordado… eu estou acordado… Concluo, então, que me basta apenas aceitar que estes sejam dois estados (excludentes, penso) da consciência, duas espécies (assíncronas) de realidades, e que são o que são (pelo menos, enquanto duram).

Bem, mas é justamente aí que me surge um problema. Se, aparentemente, sou capaz de exercer domínio sobre o conteúdo desses meus sonhos “lúcidos” (quer dizer, nem tanto, já que esse “domínio”, de certa forma, parece estar me fugindo ao controle), por que essa sensação de memória dupla? Certos sonhos me causam a impressão (muito forte), de que ao experimentá-los, altero a realidade, ou, pelo menos, a realizo, de uma forma aumentada, hiperreal, para além do conceito de real com o qual temos nos conformado.

Isso foi apenas um sonho? Tudo bem, até aqui eu entendi… Mas, então, quem é o sonhador que sonha o sonho? O pensador que pensa do pensamento? E o escritor que, efetivamente, escreve a história? Aquele que captura as idéias? Preciso compreender como isso funciona para saber se começo este conto pelo princípio ou pelo final…

Pois, afinal, eu leio livros. Mas, eles também me lêem. Por isso, é possível, provável e justo que para a história (essa que tenho lido, vivido e, por conseqüência, escrito, nos últimos tempos), eu escolhesse como título, algo do tipo: “Certos dias, talvez, continuem para sempre”. Mas, apesar de até achar um bom título, me fica a impressão de ser um tanto quanto longo e até pomposo para esse relato. Então, talvez seja melhor, escolher um outro, algo como “Sonhos que sonham a si mesmos” ou “Sonhos lúcidos”, por exemplo, ou, quem sabe, não escolher título algum. Isso mesmo, por enquanto, poderia ir assim, sem título. A história em si se transformaria no seu próprio título preenchendo o vazio. O vazio tem mesmo essa qualidade (dentre algumas outras): se de corpo, não assume um contorno, um limite, de espírito, inesgotável, permanece dilatando-se, expandindo-se, ampliando-se, desenvolvendo-se e evoluindo. Além do mais, as palavras nunca esgotam as coisas. Entretanto, se ao menos puderem ajudar a desviar o “fluxo”, ah, já será uma grande coisa…

Pelo que me consta, ninguém ainda relatou o seu próprio delírio, quer dizer, pelo menos não este tipo de delírio, ou esse tipo de história (o que no fundo dá no mesmo). E por falar nela, que toda história tem um começo, um meio e um fim, já não estou muito certo, sabe? Uma desconfiança, muito parecida, me é causada pelos sonhos. E por falar neles…

Estranhos, muito estranhos são os sonhos e, mais ainda, os propósitos, que deles não entendemos. Certa noite, vencido pelo cansaço e pela sonolência, sobre aquele livro, fechei os olhos e, adormecendo, sonhei. Acordando, desorientado, não sabia se acordava de um sonho sonhado ou, se ainda no sonho, sonhava que acordava. Parecia ser um sonho recursivo, semelhante àquele do sábio taoísta Zhuangzi, que sonhando ser uma borboleta, não sabia, ao acordar, se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta que sonhava ser um homem.

Porém, existem sonhos ainda mais estranhos, podem ter certeza. Como por exemplo, aqueles que parecem sonhar a si mesmos, sonhos que parecem estar ingressando neste mundo vagarosamente, como areia do tempo que escorre em uma ampulheta. Sonhos que parecem nunca ter fim.

Um sonho desse tipo parece ter sido sonhado, em continuidade, pelo imperador mongol Kubla Khan e pelo poeta inglês Samuel Coleridge. O poeta sonhou, por volta de 1797, um poema que narrava a construção de um palácio (que não sabia ter existido), o mesmo que o imperador edificara no século XIII, segundo sua própria visão onírica…

Certos sonhos estão repletos de milagres (como reconheceu Baudelaire), sonhos que talvez não sejam exclusividade de quem os sonhem. Começo a desconfiar que sonhamos os sonhos sonhados por muitos antes de nós e que possivelmente também sejamos sonhados por eles.

De que matéria estranha os sonhos são feitos? Por que estranha memória, aquele livro (que não pára de se reescrever enquanto o leio) é lembrado? Inquieta-me que pareça fazê-lo com um propósito. Se apesar de todo esse tempo o mistério não desaparece, é porque do vazio e do silêncio, emerge um grito, oprimido, mas que não se cala: o grito dos sonhos…

Será que somos nós mesmos que produzimos os sonhos (e os pesadelos) que sonhamos? Bem, durante muito tempo, eu não tive coragem de responder: “Não, isso é coisa da História e dos seus historiadores…” Mas, afinal de contas, eu também me questionava: Quem é o dono dessa história então? Quem a escreve? E quem são esses historiadores? Ou melhor, quem é que me gera todos esses pesadelos?

E se outros mais (o que é bem provável) os sonharam também?

Que todas as honras e glórias sejam suas, (aqui, por favor, repita o seu próprio nome, leitor), agora e para todo o sempre assombrado pela unidade descendente de Hypnos, você que foi o primeiro, entre os primeiros, a cruzar esse misterioso oceano, o oitavo, que separa dos sonhos, as palavras que os intuem e, deles regeneram a realidade…

Sarcásticos e irônicos questionamentos certos pensamentos me trazem. Como aquela visão que com meus próprios olhos fechados tive (como um duplo de Endímion) dos livros que deviam ser abertos para que, de suas páginas, emergissem as histórias que novamente estavam prestes a serem contadas e a ganharem a vida que, na verdade, nunca deixara de existir, pois, apenas adormecia, enquanto os livros permaneciam fechados.

E escrevendo meus pensamentos, também me comunico com meus autores, pois se somos histórias contadas pelo sonho de outros que nos sonham e nos contam da mesma forma que sonho e conto minhas histórias é possível que possa me comunicar com esses sonhadores através desses sonhos lúcidos, ou seja, através da literatura.

Pois agora, os livros foram definitivamente abertos e suas histórias serão contadas, produzindo-se sonhos e pesadelos que deverão ser assistidos: o sonho (ou o pesadelo) de dar asas ao homem, por exemplo, será um deles…

É possível que neste momento, você mesmo ainda esteja sonhando, ou quem sabe, eu é que sonho, que você esteja sonhando que eu sonho que o nome desse personagem seja… (poderá ser qualquer um de nós) e que esta, também seja a sua história, além da nossa própria, claro, sempre. Sendo assim, bons sonhos para todos nós que os acordamos e os escrevemos, assim…

Que toda história tem um começo, um meio e um fim, pode ser certo ou pode ser quase certo, pois os livros também sonham, e quando são acordados fazem com que todas aquelas histórias (sonhadas) aconteçam novamente…

O oitavo mar nunca antes navegado é o céu de Daedalus e Icarus, por onde voarão pássaros e homens e flutuarão sonhos, os que sobreviverem a Nyx, à noite, avessa que é do oito, substância maior da qual o homem é feito: infinito. Por que você resolveu abrir este livro, agora é a totalidade indivisível de todas as coisas, o rio fluente e constante, o fluxo e o refluxo de nossa consciência mais fundamental e profunda. Tentarei descrever, com o máximo de detalhes que conseguir perceber, as imagens que me chegam. Que me leiam, ouçam e compreendam, aqueles que tenham olhos, ouvidos e pensamentos preparados para ler, escutar e se apropriar de um pouco das memórias que preciso compartilhar, pois dossonhos, não se deve ignorar os conselhos…

Pois os sonhos (que não terminam nunca) também se reproduzem a partir dos livros, e insistem em voltar todas as noites, todos os dias, nos assustando por sua mais absurda seqüência, conseqüência, recorrência e recursividade. Porque assim é a História (essa lemniscata omnisciente em todos nós) e é para isso que ela serve. Será que respondi à sua pergunta?

(*) Este conto foi originalmente publicado com o título de Sonhos Lúcidos no portal Comunique-se e, 19/07/2007.

Sem comentários »

Neste dia: 19 de fevereiro

Nasceram neste dia, 1825 - Mór Jókai, escritor húngaro (m. 1904); 1878 - Kristofer Uppdal, escritor norueguês (m. 1961); 1917 - Carson McCullers, escritora estado-unidense (m. 1967); 1919 - Sérgio Corrêa da Costa, historiador e diplomata brasileiro (m. 2005); 1932 - Alberto Dines, jornalista brasileiro; 1953 - Massimo Troisi, ator, diretor e poeta italiano (m. 1994);

Faleceram neste dia, 1916 - Afonso Arinos de Melo Franco, jornalista, escritor e jurista brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras (n. 1868); 1951 - André Gide, escritor francês (n. 1869); 1952 - Knut Hamsun, escritor norueguês (n. 1859); 1959 - Diogo de Macedo, escultor, museólogo e escritor português (n. 1889); 1981 - Osvaldo Orico, escritor brasileiro (n. 1900); (Fonte: Wikipedia)

Sem comentários »

Próxima Página »