Arquivo de 21 de Fevereiro de 2008
Leetspeak conversa com o escritor (e tricolor) Sérgio Sant’Anna

Sérgio Sant’Anna fala a Leetspeak sobre sua preguiça “desse deslumbramento” com a Internet, confessa que sempre detestou teorias do conto e explica por que revisou e republicou o conto Ele, originalmente lançado em 1973, na internet.
Por C. S. Soares
Há duas semanas, Sérgio Sant’Anna publicou em Cronópios uma revisão do conto Ele (do livro Notas de Manfredo Rangel, Repórter, de 1973) e nos apresentou um belo exemplo de como a internet muda tudo. Na grande rede, a obra não é mais limitada pelos átomos do livro impresso. A internet permite ao autor, corrigir, alterar, rever a sua obra. O texto (na cabeça do artista) está em movimento, é sempre um working in progress (como previu a sensibilidade de James Joyce). Se Borges publicava para se livrar do texto, aparentemente (ou certamente) inesgotável, na internet, publicamos não mais para nos livrarmos da obra, mas porque desejamos dialogar (literalmente) com nossos leitores.
Convidamos Sérgio para um bate-papo no Leetspeak. Agradecemos ao escritor por ter aceitado. O acaso regeu o inesperado (inusitado até) andamento da conversa que começou por e-mail, passeou pelo Café literário do Cronópios (onde também falamos sobre o nosso sempre surpreendente Fluminense e lembramos Nelson Rodrigues) e, por fim, voltou para a troca de e-mails.
O bom bate-papo, informal e aberto, acabou gerando um interessante fluxo de pensamentos e idéias que iam, naturalmente, puxando as perguntas seguintes. O pouco que precisei editá-lo (para criar este artigo), foi menos uma tentativa de aproximá-lo do tradicional formato perguntas & respostas, do que pela minha vontade (confesso) de apresentá-lo como a narrativa de um bate-papo, já que ela mesma, a Narrativa, inevitavelmente transformou-se no tema principal de nossa conversa.
Começamos assim, no envio do primeiro e-mail, o bate-papo. Já na apresentação da proposta da nova coluna (ainda sem o nome de Leetspeak), as primeiras perguntas foram surgindo:
Caro Sérgio, Tudo bem? Estamos iniciando uma nova seção no PontoLit e gostaria muito de ter a sua participação (caso seja possível) repondendo as seguintes perguntas (com base na sua experiência de revisar o conto Ele, publicado em Cornópios):
Como nasce o conto, o romance?
A obra termina no ponto final ou, organicamente, continua se transformando na cabeça do escritor? A internet é um meio que permitirá corrigir, alterar, rever a obra?
Na internet, a obra deixa de ser um sermão e se tranforma em um diálogo?
A resposta veio com a assinatura inimitável de Sérgio Sant’Anna:
Caro Soares, vou ser sincero, não tenho desejo de responder essas perguntas, “fechar os nascimentos de conto e romance”. Nem me pergunto isso, pra quê? Quanto à segunda pergunta, a obra às vezes continua, mas é preciso dar um basta, para não continuar escrevendo sempre o mesmo livro. E a terceira: o conceito de obra aberta vem muito antes da Internet. Na verdade, tenho a maior preguiça desse deslumbramento com a Internet. Um grande abraço. Sérgio.
Ótimo, pensei. Sérgio capturou bem o espírito informal da Leetspeak. Mas fiquei intrigado. Do autor de Conto (não conto), do experimentalista, do inconformado com os limites da narrativa Sérgio Sant’Anna, eu jamais esperaria uma falta de interesse pela sempre enigmática gênese do conto/romance. Sem dúvida, havia algo mais ali, talvez um enigma proposto (às vezes a si mesmo) pelo autor, o “homem-narrativa”, um mistério que precisava ser esmiuçado, escrutinado, e por fim, se possível, decifrado. Então, resolvemos aceitar o desafio.
Sérgio, você é um dos mestres do conto brasileiro. Conhecemos sua inquietação e, porque não somos ingênuos, duvidamos que ela não o leve, com frequência, a se questionar sobre o tema da gênese do conto/romance. Conhecemos sua verve e o seu experimentalismo. Insistentemente, você vem quebrando regras, tentando fugir do ciclo vicioso (porque assim ela se comporta) que é nossa tentativa de narrar histórias. Tenta ampliar os limites, questionar a amplitude do conto, enfim, questionar a própria narrativa contemporânea. Por isso emendamos: Conta-se ou não o que não há para se contar? Assim termina (ou interrompe-se) Conto (não conto), de sua autoria. Nesse mesmo conto, o narrador, conclui: “Mas, onde, como, foi feita essa divisão entre som e silêncio, se não com os ouvidos?” Contar e não contar é uma opção do autor? Sobre a necessidade de se dar um basta para “não continuar escrevendo o mesmo livro”, eu, particularmente, confesso, ainda não tenho opinião formada. Borges dizia que o escritor escreve sempre o mesmo livro, sob outro ângulo ou em outro tempo. Penso ser difícil a criatura (a obra) não levar os genes do criador (o autor). Lembrando o verso de Wordsworth (“a crianca é o pai do homem” ), me ocorre as seguintes questões: O livro consegue limitar a obra? O autor consegue realmente dar um basta à sua obra? Por que você achou necessário rever e republicar o conto Ele, de Notas de Manfredo Rangel, Repórter, na internet? Você escreveu que “A republicação se faz necessária porque Notas de Manfredo Rangel, Repórter se encontra há muitos anos esgotado” e no final do conto você informa: “(Texto revisto pelo autor)”. O que representou essa experiência de rever um conto escrito há mais de 30 anos? E, se me permite, uma provocação: Um só “basta”, não foi suficiente? Ou precisamos dar uma série de bastas à obra?
Com a palavra Sérgio Sant’ Anna:
Caro Soares: o certo é: “ou então se conta o que não há para contar”. Para mim basta a reflexão que vêm dentro de histórias como essa. Sempre detestei teorias do conto, como por exemplo do esnobe Henry James. Acho até que tenho o maior tesão de contrariá-las, pois o falso inglês escreveu que o fundamental do conto é uma boa história. Também as teorias a la Hemingway são limitadoras. Agradeço suas palavras generosas e deixo a reflexão sobre o meu trabalho para os outros, quase sempre. O que me levou a republicar Ele na Internet foi mesmo por que teve de ser retirado, como outros trabalhos, do volume 50 contos e 3 novelas de Sérgio Sant’Anna. E os contos dos meus livros iniciais, que a princípio seriam incluídos, estavam todos eles passando por uma processo de pequenas revisões, junto com a pessoa que faz o trabalho de edição dos meus livros lá na Companhia das Letras. Aí tivemos de cortar 20%, se não o livro teria mil páginas. O que incluí mesmo foi a mulher-pigmeu, na exposição, do final. Achei divertido fazê-lo e, aproveitando a chance… Mas “essa mulher” está sendo objeto de um trabalho mais longo, em andamento.
Infelizmente, continuaremos curiosos em relação a tal “mulher pigmeu”. Sérgio não quis dar mais detalhes. Então, mudemos de assunto.
O que o escritor Sérgio Sant’Anna nos reserva de novidades para o ano de 2008?
Escrevo bem devagar, mas quase diariamente e curtindo muito, o romance passado em Praga, para onde fui por um mês em setembro de 2007, fazendo parte do projeto Amores Expressos. Sairá um livro bom, tenho certeza, mas é preciso que eu cuide com carinho dele. Nada mais a dizer, a não ser, saudações tricolores.
***
Há poucos minutos, enquanto relia este artigo, o Flamengo ganhou do Vasco por 2 x 1 e está na final da Taça Guanabara. Infelizmente, ainda não foi dessa vez que o meu Fluminense (ah, ele sempre nos surpreende!) poderá conquistar o título que viu pela última vez no longínquo 1993. Sérgio, sabemos, também é tricolor. E dos bons. No início da semana passada, ainda esperançosos de que o Botafogo, adversário complicado, seria apenas mais um dos obstáculos rumo ao inevitável título, eu e Sérgio, após os 4 x 1 sobre o Fla, lembramos Nelson Rodrigues no Café Literário do Cronópios:
Pois é, Soares, você deve ter visto como amanheceu o bairro hoje, cheio de gente com a camisa tricolor, a branca, ou a laranja, que tantos torcedores usam e o clube cisma em não deixar a equipe vestir em jogos. Já me explicaram uma razão para isso, mas me esqueci. Realmente, o terceiro gol do Thiago foi uma pintura. Nelson Rodrigues às vezes falava de certos gols tricolores que eles deveriam estar no Louvre. E aquela tempestade que caiu no intervalo, Nelson diria que foi um mau tempo digno de sei lá que ato do Rigoleto, de Verdi, prenunciando a tragédia rubro-negra. Muita gente não sabe que Nelson, antes de se tornar dramaturgo, foi crítico de ópera. Isso se reflete demais em suas peças. Na última que escreveu, pouco antes de sua morte, “A serpente”, os curtos monólogos são indicados como árias. Futebol também é cultura.
Eu responderia:
Nelson, o sobrenatural Rodrigues, que era um sábio tricolor (não por acaso), como poucos, criou máximas que demonstram que o futebol (inclusive o escrito) é uma forma de cultura, e genuinamente brasileira.
Ao prezado Sérgio Sant’Anna, o homem-conto, o homem-narrativa, o nosso sincero obrigado e nossas cordiais saudações tricolores. Sempre.
Acesse também:
• Sérgio Sant’Anna na Companhia das Letras.
• Ele (um conto fora das antologias), publicado no site Cronópios
• Blog de Sérgio Sant’Anna no projeto Amores Expressos
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