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Arquivo de 28 de Fevereiro de 2008

O Livro Invisível

Como documentos que são apresentados interativamente em telas de computadores, armazenados em disco e transmitidos eletronicamente podem melhorar a experiência que temos com seus similares de papel? Definitivamente, a resposta correta não seria “simulando o papel”. O modelo de páginas que usamos na World Wide Web ainda é um modelo de imitação do papel. Precisamos de algo realmente diferente.


Por C. S. Soares

Há quase seiscentos anos, o alemão Johannes Gutenberg inventava os tipos móveis de chumbo fundido, reutilizáveis, conferindo uma enorme versatilidade ao processo de elaboração de livros. Uma grande contribuição à tecnologia da imprensa e que permitiu a massificação da produção de livros.

Desde então temos usado a imprensa, livros e outros dispositivos baseados em páginas, para a transferência das idéias no tempo e no espaço. Rádio, cinema e televisão emergiram no último século e agora, com a popularização do uso dos computadores pessoais, combinamos diversos tipos de mídia, descobrindo e inventando novas formas de expressão e criando, mesmo sem perceber, uma possível literatura 2.0.

Ainda usamos, é verdade, a palavra livro, mesmo que metaforicamente, para identificarmos o que veio depois do livro. Mas o que vem a seguir, ainda será chamado de livro? Por quanto tempo ainda nos manteremos presos ao antigo (e limitado) paradigma de páginas? Observaremos agora, algumas possibilidades.

Ted Nelson, o sociólogo e filósofo americano criador dos termos hipertexto e hipermídia (em 1965) e que ajudou a Andries van Dam no desenvolvimento do Hypertext Editing System, em 1968, na Brown University, continua buscando formas diferentes de interação com documentos armazenados em computadores. Já há algum tempo, vem divulgando a Transliteratura, um padrão aberto que recentemente ganhou uma implementação em software: o XanaduSpace.


XanaduSpace 1.0

Nelson deriva seu trabalho de uma simples questão: como documentos que são apresentados interativamente em telas de computadores, armazenados em disco e transmitidos eletronicamente podem melhorar a experiência que temos com seus similares de papel? Definitivamente, a resposta correta não seria “simulando o papel”. O modelo de páginas que usamos na World Wide Web ainda é um modelo de imitação do papel. Precisamos de algo realmente diferente. É bom acompanharmos de perto as sugestões filosóficas e científicas de Nelson. Outras propostas de apresentação do texto em computadores que apareceram nos últimos anos são o FeatureLens e o TextArc.


FeatureLens

Mudando-se o foco e a abrangência da modo como representamos conteúdos (tradicionalmente impressos) em computadores, para quais aspectos tendem a influenciar a produção no campo literário, penso que não se discutirá produtivamente o futuro da literatura se desconsiderarmos o papel fundamental do componente tecnológico.


TextArc

Em 1984, John Burdette Cage, da empresa Sun Microsystem, anunciava the network is the computer e a rede se transformaria, nos anos seguintes, no grande computador distribuído, colaborativo e on-line que chamamos de internet. Em 1990, Bill Gates preconizava: Information at your fingertips. O foco é a informação. O formato do computador pouco importa, na verdade, este se torna cada vez mais invisível. Começava a era dos information appliances.

Em maio de 2007, o mesmo Gates anunciou na Microsoft Strategic Account Summit que a leitura se tornará uma atividade completamente on-line. Por quê? Em primeiro lugar, porque dessa maneira será melhor, mais atualizável (e atualizada) e mais interativa. O espaço do papel limita. Essa visão (que compartilho) além de ser compatível com os novos tempos que já estamos vivemos (tempo de integração das mídias, colaboração de conteúdos, rapidez necessária na atualização da informação), me parece ecologicamente mais correta e generosa pois qual escritor não teve, por exemplo, que passar a faca (inapelavelmente) em seus textos por causa da limitação no número de páginas ou de toques em revistas ou livros a que se destinavam?

Até mesmo em tais situações outras possibilidades interessantes aparecem, como por exemplo, a criação de diferentes versões (customizadas) de um mesmo texto, formatado apropriadamente em relação à mídia na qual será distribuído (como a febre dos mangás japoneses baixados em celular), ou uma versão do editor diferente do autor (que poderia, por exemplo, vir acrescida de comentários).

E em relação aos meio através do qual se dará a leitura? Muito se reclama dos livros digitais ou eBooks (mesmo com suas óbvias vantagens em relação ao livro “de átomos”) por causa do desconforto causado pela leitura de textos na tela do computador. Então, o que precisamos é de um dispositivo de leitura mais amigável. Ora, isso é questão de (pouquíssimo) tempo, não tenham dúvidas. Já temos por aí algumas boas apostas, como os rollable displays da Phillips Polymer Vision.


Phillips Polymer Vision apresenta os Rollable Displays

Quem teme a mudança que se anuncia? Certamente, não somos (pelo menos, não deveríamos ser) os escritores que cada vez mais adquirimos independência (de publicação e divulgação, apenas para começar). A tecnologia em rede e na ponta dos dedos simplifica e mexe no status-quo. Os outros players do mercado editorial (principalmente no Brasil) precisam mudar (e rápido) seus conceitos, e seus serviços precisam ser mais dinâmicos e menos engessados.

O assunto tem sido amplamente discutido e experimentado nos Estados Unidos. Em junho do ano passado aconteceu em San José, California, a Tools of Change for Publishing Conference, onde se debateu, em diversos painéis, o futuro das publicações. Também na última semana, a Adobe Systems Incorporated lançou o Adobe® Digital Editions 1.0, um novo aplicativo RIA (Rich Internet Application) que funciona on-line e off-line, suporta diferentes formatos de arquivos (como PDF e XHTML, Flash SWF entre outros) e, acima de tudo (afinal esse é o seu principal objetivo), oferece um novo modelo no processo de aquisição, organização e leitura de eBooks, jornais e outras publicações digitais.

Os escritores também precisamos mudar nossos conceitos e acompanhar o nosso próprio tempo. Um tempo incerto, mas também cheio de oportunidades. Um tempo em que saber pensar diferente é condição de sobrevivência. Não podemos mais permanecer arraigados a modelos ultrapassados e, principalmente, não devemos ter medo de arriscar, de inovar (mesmo que o próprio conceito de inovação precise também ser inovado) para que possa ser produzida (realisticamente) a literatura 2.0, a segunda versão da literatura, aquela que inevitavelmente emergirá desse cenário de constante mudança, independentemente de vontades individuais (pois também será colaborativa e interativa), alterando drasticamente nossa relação com esses livros em rede (ou networked books), seja como leitores, seja como escritores, revolucionando inclusive nossos modelos tão individuais de criação (veja o exemplo do a million of penguins da Penguin Books e De Montfort University). Assim como o computador, a partir da convergência, o livro, inevitavelmente, estará em todos os lugares, embutido, tornando-se cada vez mais invisível.

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EPIC: E então, o jornalismo deixou de ser um sermão para ser uma conversação

Pode ser o melhor dos tempos. Pode ser que não. No ano de 2015 as pessoas terão acesso a uma extensão e profundidade de informações inimaginável em épocas anteriores. Todos contribuem de alguma maneira. Todos participam para criar um meio jornalístico vivo. dinâmico, porem a imprensa como você conhece deixou de existir…

O filme é uma fiçcão (ou uma previsão, escolham) criado por Robin Sloan para o Museum of Media History. O EPIC (Evolving Personalized Information Construct) realizaria a previsão de Rosental Calmon Alves (UNESCO e University of Texas), e o jornalismo deixaria de ser um sermão para ser efetivamente uma conversação.

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