Arquivo de Março de 2008
MORTIMER ADLER SONHOU O BOOKLAMP (OU AINDA, SOBRE COMO LEREMOS OS LIVROS DE AGORA EM DIANTE)

No primeiro capítulo de How To Read a Book, clássico de Mortimer Adler (a versão que tenho é a revisada de 1972, com colaboração de Charles Van Doren), o autor, dirigindo-se ao leitor médio, informa: este é um livro para leitores que não podem ler. Passado o impacto inicial, logo no parágrafo seguinte, Adler explica: “It is that this book is intended for those who can read in some sense of “reading” but not in others”, ou seja, para aqueles que podem ler em algum dos “sentidos” da palavra leitura mas não em outros.
Dessa afirmativa, pode-se inferir que existem “tipos” de leitura. Logo, Mortimer apresenta duas delas: a leitura por diversão e a leitura para aquisição de conhecimento (uma não exclui a outra, claro). Em algum momento, nós leremos de uma forma ou de outra, seja por necessidade profissional, para resolver um problema específico, ou por entretenimento e prazer.
Mortimer Adler ainda explica que existem 3 maneiras de se ler um livro, e que uma boa leitura exige que aplicaquemos cada uma delas a cada livro que lermos: a primeira pode ser chamada de leitura estrutural ou analítica; a segunda, interpretativa ou sintética; a terceira, é a leitura crítica ou avaliativa. Em cada uma destas etapas, diversos passos são necessários. Apenas para citar alguns dos passos definidos por Adler, lembrarei aqueles relativos à descoberta e interpretação das palavras, sentenças e argumentos do livro.
Esses passos nos tomam tempo, claro, um tempo importante e necessário à qualidade de nossa leitura.
Em 1952, a criatividade de Mortimer Adler nos presenteou com o Syntopicon, um índice publicado nos volumes 2 e 3 da coleção Great Books of the Western World da Encyclopaedia Britannica. Compilada por Mortimer Adler, sob a orientação de Robert Hutchins da University of Chicago, esses volumes apresentavam uma coleção de 102 grandes idéias do cânone ocidental. O termo “Syntopicon” significa “uma coleção de tópicos”. Os volumes catalogados por Adler e sua equipe pretendiam conter as idéias fundamentais contidas nas obras que fazem parte da coleção Great Books of the Western World, que apresenta cronologicamente as grandes obras do cânone ociedental em um pacote de 54 volumes, compreendendo de Homero a Freud. O Syntopicon listava, sob as idéias, a localização de cada de uma de suas ocorrências em cada um dos livros da famosa coleção.
A certa altura de How to Read a Book, Mortimer confessa: Eu havia sonhado o Syntopicon, mas nunca imaginei que pudesse se tornar uma realidade. Imaginemos então que essa idéia pudesse ir mais além. De que forma a grande velocidade e capacidade de processamento dos computadores poderiam nos ajudar em nosso processo de leitura? Essa é uma questão primordial em uma sociedade interconectada e cada vez mais dependente de acesso rápido (e de qualidade) às informações.
Uma revolução (silenciosa) acontece e poderá alterar para sempre a forma através da qual nos relacionamos (leitores, escritores e editores) com os livros. Atende pelo nome de BookLamp, e é uma ferramenta de aprendizagem de máquina que vasculha e analisa livros e outros textos, não apenas o que está escrito, mas como foi escrito, e pode agrupar quaisquer tipos de textos digitais (por enquanto romances, em breve, virtualmente qualquer tipo de texto) que compartilham estruturas e estilos de escrita semelhantes. Em resumo: é um sistema que indica livros a partir da análise estatística de estilos de escrita.
O BookLamp pode sugerir novas leituras com base em romances já lidos por quem o consulta ou, até, pelo tipo de experiência de leitura que o leitor deseja. Quem “folheará” o livro é o Booklamp, e a partir dessa “leitura estrutural”, o sistema retorna diversos gráficos que auxiliam o candidato a leitor a decidir (com alto grau de precisão) se a leitura daquele livro é necessária ou não.
O BookLamp é inspirado no Pandora, um serviço de recomendação de músicas.
Apresentação do BookLamp
O BookLamp é um software de text mining (mineração de textos) e usa técnicas de aprendizagem de máquina (um sub-campo da inteligência artificial dedicado ao desenvolvimento de algoritmos e técnicas que permitem ao computador aprender) para aperfeiçoar, constantemente, seu desempenho.
O software do BookLamp leva em consideração 3 dos maiores aspectos que os seres humanos normalmente levam em consideração no processo de leitura: a sinopse, os personagens, o estilo de escrita do autor. O software do BookLamp possui inteligência intrinseca para inferir diversos aspectos relativos a esses itens, a partir de pistas escritas e quantificadores, como densidade de palavras, diálogos entre os personagens, a ação na trama, níveis de descrição de lugares, etc, contidos no próprio texto e comparando esses valores a outros dados estatísticos extraídos de outros livros.
Neste momento existem 179 livros no banco de dados, com mais de 700.000 pontos de dados sobre 30.000 cenas a partir desses títulos.
Os usuários do BookLamp (no fórum associado ao site diversos temas relacionados à proposta do software já estão sendo discutidos) podem selecionar um desses 179 titulos e receber recomendações de livros similares ou observar gráficos que o sistema registrou sobre cada uma das caracteristicas que contabiliza. Uma das caracteristicas mais interessantes é a análise de estimulação (pacing analisys) que indica quando a estimulação da história (o quanto ela, estatisticamente, tende a prender a atenção do leitor) aumenta ou diminui.
No video de demonstração, Aaron Stanton, criador do BookLamp, apresenta uma analise sobre Jurassic Park, de Michael Crichton, e demonstra que seu software é inteligente o suficiente para detectar onde a estimulação (durante a leitura da história) diminui, incluindo a página onde se dá a mudança.
O sonho de Mortimer Adler tornou-se realidade e foi além.
Sem comentários »NESTE DIA: 24 DE MARÇO

Nascimentos: 1809 - Mariano José de Larra, escritor espanhol (m. 1837); 1834 - William Morris, escritor e designer inglês (m. 1896); 1855 - Olive Schreiner, escritora sul-africana (m. 1920); 1889 - Olegário Mariano, poeta, político e diplomata brasileiro, terceiro ocupante da cadeira de número 3 da Academia Brasileira de Letras (m. 1958); 1926 - Dario Fo, escritor italiano, vencedor do Nobel de Literatura em 1997;
Falecimentos: 1718 - Louise-Geneviéve Gillot de Saintonge, escritora e libretista francesa (n. 1650); 1984 - William Voltz, escritor alemão (n. 1938); 1993 - José dos Santos Ferreira, escritor macauense (n. 1919); 1997 - Martin Caidin, escritor estado-unidense (n. 1927); 1882 - Henry Wadsworth Longfellow, autor estado-unidense (n. 1807); 1905 - Jules Verne, autor francês (n. 1828).
Sem comentários »




