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Arquivo de Março de 2008

LA SINDONE, POR C. S. SOARES

Por C. S. Soares

Conhece o que está ante os teus olhos – e o que te é oculto te será revelado; porque nada é oculto que não seja manifestado. - Evangelho de Tomé

Você acredita em milagres? A pergunta fora de contexto capturara minha atenção. Pensei: as palavras não conseguem mesmo esgotar uma visão que não se apresenta. No verso do cartão com a inabitual interrogação, encontrei o nome e o telefone do padre Giovanni Fiori, que por suas ações incisivas, idealismo e juventude havia recebido da imprensa o apelido de il bambino terribile de la Chiesa Cattolica di Torino.

Sou Giuseppe Mantovani, jornalista, e afirmo: vivemos em um mundo de versões. Uma obsessiva tentativa de apreensão da realidade me levou a acumular notas sobre ocorrências inusitadas, casos extraordinários que compartilhei, por vários anos, na coluna l’Ultima Biblioteca do jornal La Stampa.

Se acredito em milagres? Antes da pergunta no cartão, não saberia a resposta. Agora eu sei, pois aprenderia com padre Giovanni (e com os acontecimentos verídicos que passarei a relatar) que tudo está em tudo, nada é definitivo, apenas intermediário e fluente, como as águas misteriosas do rio Pó, o rio sem fundo.

Naquela tarde de maio de 2002 eu observava da janela de meu apartamento a placidez de suas águas, quando me lembrei do enigmático cartão recebido pela manhã. A curiosidade de jornalista me fez pegar o telefone.

— Boa tarde, me chamo Giuseppe Mantovani e preciso falar com padre Giovanni Fiori.

— É ele quem fala. Aguardava seu telefonema, precisamos conversar pessoalmente. Que tal amanhã pela manhã?
Marcamos para o dia seguinte, às 8, na Catedral Metropolitana.

Na hora marcada, padre Giovanni me aguardava na entrada principal da Catedral.

— É um prazer conhecê-lo, senhor Mantovani. Nossa conversa não será uma entrevista, compartilharei confidências. Antes quero levá-lo a um lugar especial.

Seguimos, então, em direção às criptas da Catedral, completamente vazias àquela hora.

— Esse é o Museu de la Sacra Sindone. Aqui realizaremos um percurso de descobertas. Giuseppe, qual a sua opinião a respeito do Sudário?

Disse a ele que sempre considerei o Santo Sudário o mais intrigante e polêmico objeto do mundo. Muitos acreditam que La Sindone seja um auto-retrato, a sangue, de Jesus Cristo.

— E você, Giuseppe, no que acredita? — o padre insistiu.

— Acredito que o Sudário seja uma fazenda surrada, estreita e comprida, envelhecida, manchada de sangue, parcialmente queimada, na qual se percebe, não sem algum esforço, a imagem de um homem barbudo e despido. A imagem no Sudário, chamada de L’Uomo della Sindone, é a relíquia cristã mais investigada e existe uma teoria de que teria sido confeccionada por um artista na Idade Média.

— Para os cristãos isso não tem o menor fundamento. O arcebispo de Turim assegurou que o Sudário pode, e deve, ser reexaminado cientificamente quantas vezes forem necessárias, mas vários cientistas já confirmaram que é improvável que algum artista da Idade Média conseguisse criar uma imagem negativa anatomicamente correta.

Em 1898 o fotógrafo italiano Secondo Pia tirou a primeira fotografia do Sudário e percebeu, espantado, que o negativo de sua foto se assemelhava a uma imagem positiva, o que significava que a imagem do Sudário era, em si, um negativo. Um grande enigma que aturde cristãos e não-cristãos.

Padre Fiori traçou o histórico de polêmicas envolvendo la Sindone: o Mandylion de Edessa, que o Narratio de imagine edessena sugeria que não fosse uma pintura; o incêndio de 1532, que destruiu partes do Sudário; as análises hematológica e microscópica de 1978 e o polêmico teste com o carbono 14 de 1988, cuja conclusão polêmica foi a de que o Sudário teria sido criado na Idade Média.

— Admitimos mais a comunicação pela imagem do que pela palavra. É isso que justifica o Sudário. Ele é o nosso quinto evangelho. O evangelho da imagem. Mais do que isso: o evangelho multimídia, o evangelho do século XXI, o mais completo e minucioso relato da Paixão de Cristo.

Nesse momento, padre Giovanni fez uma pausa, buscou forças e me relatou algo impressionante.

— Sempre estivemos preocupados em saber o que aconteceria se a imagem no Sudário eventualmente desaparecesse. Descobriremos que o Sudário seria o próprio Cristo em estágio de crisálida pronto para emergir glorioso? E o Sudário desabitado? Continuará a capturar nossas atenções? A Igreja, certamente, não quer ter dúvidas. É hora de acordarmos e nos concentrarmos no verdadeiro sentido espiritual do Sudário: Deus ainda acredita em nós.

Padre Giovanni, o homem comedido, senhor de seus atos, exasperado, transformou-se e sobre seu rosto surgiu um semblante de loucura e fúria.

— Estão preparando uma farsa. Em poucos dias começará, sob a justificativa de restauração, a consagração de um novo Sudário. O original será substituído por uma cópia gerada em laboratório nos dias que sucederam o incêndio criminoso da Capela Guarini, em abril de 1997, quando, por alguns dias, o Sudário esteve longe da vista de todos, inclusive daqueles que zelam por sua segurança.

Essa parte da história, confesso, mesmo para um pesquisador do insólito, me pareceu fantástica demais. Como jamais voltaria a ser procurado pelo padre, reforcei em mim essa opinião.

Grande foi a minha surpresa, porém, quando uma onda de reclamações varreu a Itália depois da veiculação, pelo Il Messaggero, da notícia sobre a restauração radical aplicada ao Santo Sudário na nova sacristia da Catedral de Turim, entre junho e julho, sem que uma comissão de especialistas fosse envolvida. Comentei com meu editor a conversa que tivera com o padre meses antes. E tentei, sem sucesso, encaixar a matéria no La Stampa.

Ainda no dia em que conversamos, ao terminar de contar sua fantástica história, padre Giovanni me levou à frente do Sudário, fez uma oração e vaticinou: Cristo nos libertará do Sudário. Finalmente, seremos livres para andarmos por nossas próprias pernas.

— Padre, a pergunta que me faço desde o momento em que recebi seu cartão é de que forma posso lhe ajudar?

— Cartão? Não, Giuseppe, eu não lhe enviei cartão algum. Recebi, há dois dias, uma mensagem me assegurando que logo que você entrasse em contato eu devia lhe contar os detalhes sobre a visão que não se apresenta, pois, tendo ouvidos para ouvir e olhos para enxergar, você não sufocará a palavra, apesar de receber a sua semente entre espinhos…

Ainda assim (para satisfazer a minha imaginação?) tentei sufocá-la.

Hoje compreendo que padre Giovanni foi perseguido, não pelo que sabia, mas por decidir viver a plenitude de sua fé e esperança. O padre seria internado como louco e dias depois o encontrariam enforcado.

Até seus últimos dias, dizem, não se cansou de gritar que Cristo havia ressuscitado, que havia se libertado do Sudário e que estava entre nós. “L’Uomo della Sindone está entre nós!” Eu, desacreditado de mim mesmo, continuo fugindo dos demônios que me atormentam, pois sou o guardião de um segredo e é possível que a circunferência – alguns a chamam contexto, outros destino – esteja se fechando.

Não me restam mais dúvidas. A ignorância me transformou em um idiota que precisou ver para crer. Dia após dia, cubro meu rosto com as mãos, não para me manter cego às evidências, mas para esconder as lágrimas. Então, escreverei (o que mais posso fazer?), pois é minha responsabilidade narrar o Evangelho de la Sacra Sindone.

Aquela pergunta não me atormenta mais. Sim, eu acredito em milagres. Eles acontecem o tempo todo. Ainda dependemos de dolorosos óculos para enxergá-los. Mas me conforta saber que a verdade ainda habita em nós.

(*) Publicado em maio/2007 na Revista Pesquisa da FAPESP

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(REVISANDO) O HOMEM SINTÁTICO (BETA)

Por C. S. Soares

Sujeito é o termo da oração que indica a pessoa ou a coisa de que afirmamos ou negamos uma ação ou qualidade. - Evanildo Bechara

I - Em Um Futuro Não Muito Distante…

PORQUE NÃO. PORQUE NÃO MESMO! PORQUE NÃO QUERO. PORQUE NÃO POSSO. PORQUE NÃO DEVO. PORQUE… Que toda história tem um começo, um meio e um fim, pode ser certo ou pode ser quase. Era um livro, apenas um livro ou, sobretudo, o livro. Aquele que ainda pendente de suas mãos Mariano evitava encarar, ao qual virava enojado, o rosto. O Livro da vida. O livro de sua própria vida. Mas, por que será que Mariano foi abrir aquele livro? Ora, porque não tinha outra escolha. Qual o motivo de toda sua angústia? Bem, seja ele qual for - e cada um de nós tem o seu próprio repertório - o era, e provavelmente não o era por pouco. (Leia mais)

***

Onde termina a ficção e começa a realidade? As fronteiras estão se tornando cada vez mais tênues. Conta a Wired Magazine (edição de novembro de 2006) que certa vez, o escritor americano Ernest Miller Hemingway, prêmio Nobel de literatura em 1954, escreveu uma história com apenas 6 palavras, For sale: baby shoes, never worn. Reza a lenda, que ele mesmo teria considerado este, o seu melhor trabalho.

Lendas à parte, leio na Wikipedia a respeito das Flash fictions (ou sudden fiction, microfiction, micro-story, postcard fiction, e até short short story), um tipo de ficção caracterizada por sua extrema brevidade, medida pelo número de palavras que a compõem, não ultrapassando às 2000 palavras, permanecendo a grande maioria na faixa de 250 a 1000 palavras.

Conjecturo se o que faz da ficção uma microficção não seria mais (ou menos) a forma como as escolhemos (ou as evitamos) ler do que o número de letras e palavras que a constitui ou a forma como arrumamos essas letras e formamos essas palavras. Como conjectura Ricardo Piglia, a respeito dos textos de Jorge Luis Borges, a ficção não depende apenas de quem a constrói, mas também de quem a lê. Dessa forma, poderiamos ler os jornais como quem antecipa uma novela ou romance ainda na mente do escritor. Onde termina a microficção e começa a realidade? As fronteiras realmente estão se tornando cada vez mais tênues.

Há poucos meses, eis que leio no site do J. Craig Venter Institute:

ROCKVILLE, MD — June 28, 2007 — Researchers at the J. Craig Venter Institute (JCVI) today announced the results of work on genome transplantation methods allowing them to transform one type of bacteria into another type dictated by the transplanted chromosome…

Em 26 de junho de 2000, era anunciado que o primeiro rascunho do genoma humano, nosso próprio manual de instruções havia sido escrito. O genoma humano consiste de todo o DNA de nossa espécie: o código hereditário da vida. Esse texto revelava 3 bilhões de letras escritas em uma estranha e criptográfica variação de 4 caracteres: A, T, G e C.

Naquela ocasião, Bill Clinton afirmava:

Today we are learning the language in which God created life. We are gaining ever more awe for the complexity, the beauty, the wonder of God’s most divine and sacred gift.

Acrescentaria ainda o geneticista Francis Collins, líder do Human Genome Project:

It’s a happy day for the world. It is humbling for me, and awe-inspiring, to realize that we have caught the first glimpse of our own instruction book, previously known only to God.

Naqueles dias, abriamos e começávamos a ler o Livro da vida.

Depois, recebemos através da imprensa, o comunicado de J. Craig Venter que também participou com Clinton e Collins do anúncio de junho de 2000:

The successful completion of this research is important because it is one of the key proof of principles in synthetic genomics that will allow us to realize the ultimate goal of creating a synthetic organism.

O J. Craig Venter Institute já entrou com um pedido requerendo as patentes de uma metodologia que pode dar origem ao primeiro ser vivo sintético . Como afirma Pat Mooney, do ETC. Group, pela primeira vez, Deus tem um competidor.

Será possível à raça humana, alterar um dia (por sua própria conta, risco e vontade) a posição dos termos da frase que lhe diz respeito, escrita por Deus no Livro da vida? Será possível ao homem especificar por completo a sua própria estrutura interna e funcionamento? Será possível ao homem, em breve, ser o seu próprio sujeito e pedicado? Será mesmo inevitável que já não o seja assim?

Sabemos agora que somos constituídos de frases. Alteraremos agora a ordem dos termos das orações. O futuro é mesmo antecipado por suas sombras. Homem Sintático, seja bem vindo à nossa estranha e difusa era. Poderia, por favor, me conceder uma entrevista?

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