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Arquivo de 27 de Abril de 2008

Leetspeak: Lilia Moritz Schwarcz

A professora titular no Departamento de Antropologia da USP, Lilia Moritz Schwarcz, fala à Leetspeak sobre o lançamento de O Sol do Brasil, uma minuciosa pesquisa histórica (e antropológica) sobre a “Missão” Artística Francesa, conta novidades sobre as exposições internacionais, sob sua curadoria, das telas do artista francês Nicolas-Antoine Taunay (a primeira será inaugurada dia 6 de maio no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro). Lilia, que no dia 5 de maio autografará O Sol do Brasil e conversará com leitores na Livraria da Travessa do Shopping Leblon (detalhes em nossa agenda), ainda antecipa, aos leitores de Pontolit, o (provável) tema de seu próximo projeto.


Por C. S. Soares

O ano de 2008 (um ano de belas colheitas, sem dúvida) começou movimentado para a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Explico: além de fazer parte da comissão para as comemorações dos 200 anos da chegada da Família Real constituída pela Prefeitura do Rio de Janeiro, Lilia lançou, em co-autoria com o cartunista Spacca, um HQ histórico (D. João Carioca - A corte portuguesa chega ao Brasil) e coordenou, com Alberto da Costa e Silva, a reedição da obra de Jorge Amado, a Coleção Jorge Amado, um dos maiores projetos editoriais da história da Companhia das Letras.

Pensam que parou por aí? Pois então, surpreendam-se: Lilia acaba de lançar uma obra que já nasce clássica (e aqui corroboro a opinião da professora Mary Del Priore), O Sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (1816-1821), e é curadora de duas grandes exposições internacionais sobre a obra de Taunay. A primeira será inaugurada já no próximo dia 6 de maio, no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. A segunda, acontecerá entre julho e setembro na Pinacoteca de São Paulo.

Lilia Moritz Schwarcz, gentilmente, aceitou nosso convite e, para nossa alegria, está aqui no Pontolit. Normalmente, a coluna Leetspeak é realizada por e-mail. Com Lilia Moritz, estreamos o bate-papo através do Skype.

Durante uma hora conversamos sobre O Sol do Brasil e sobre as exposições. Ao final de nosso agradável bate-papo, Lilia Moritz – que também conversará com leitores no próximo dia 5 de maio na Travessa do Shopping Leblon (detalhes na nossa agenda) – ainda antecipou o (possível) tema de seu próximo projeto: será relacionado (e de forma bastante merecida) a um grande autor carioca.

Pontolit: Lilia, como surgiu a idéia de centrar a narrativa de O Sol do Brasil em Nicolas-Antoine Taunay? O que lhe levou a desconfiar da versão difundida sobre a vinda da Missão Artística Francesa a convite de dom João?

Lilia Moritz Schwarcz: Quando eu terminei As Barbas do Imperador (Companhia das Letras, 1998), comecei a estudar a Academia (de Belas Artes), então pensei, bem, eu preciso estudar a origem da Academia e assim eu cai na chamada “Missão Francesa”. Descobrindo uma certa carta do Taunay (a d. João), fiquei intrigada e tentando desvendar essa carta, fui descobrindo Nicolas-Antoine Taunay que era uma figura de bastante renome naquele contexto. Taunay era da Academia (Francesa), pintor do grupo de Napoleão. Fiquei me perguntando um pouco sobre a carta e sobre essa vinda, então, na verdade, é o oposto da sua pergunta, eu comecei a perseguir a figura do Taunay, e ai me deparei com essa “grande verdade” da historiografia nacional que é a assim chamada “Missão Francesa”. Comecei a desconfiar dos documentos. Por que artistas franceses viriam ao Brasil? Por que príncipe contrataria artistas franceses? Foi então, que eu descobri documentos da Academia. Utilizei a bibliografia que ja existia. Eu não fui a primeira a desconfiar, como eu digo no livro, Marcos Pedrosa já o havia feito muito antes de mim, em 1957. Mas aí, eu fui usando outras fontes, não apenas os jornais de época e os documentos de Debret e de Taunay, mas também os documentos que existem na Torre do Tombo, em Portugal e os documentos existentes na Academia de Artes da França.

P: E nesse processo investigativo-histórico, sabemos, você encontrou (no Museu Imperial de Petrópolis) a famosa carta, de meados de 1815, em que Taunay escreve a dom João se oferecendo para “dedicar-se ao seu serviço e àquele de sua augusta família”.

LMS: Sim, e é com ela que começo meu livro. Foi a partir dela, que eu fiquei intrigada, quer dizer, porque se a tal missão fosse mesmo uma missão contratada pelo principe, porque é que artistas do calibre de Taunay se ofereceriam para esse serviço?

P: A partir de tantas descobertas, Lilia, será possível afirmar que o Brasil realmente conhece a sua história?

LMS: Eu acho que vamos cada vez mais nos conhecendo, nos redescobrindo. Marc Bloch (historiador medievalista francês) sempre dizia que cada tempo tem a sua história, então, eu acho que não é só o Brasil, acho que todo país, no final, conta uma espécie de ladainha e penso que é parte da posição do historiador checar novas fontes e abordar o mesmo problema a partir de questões diferentes que levarão a compreensões também diferentes. O Brasil, assim como a França, quer dizer, todo país, tem que se redescobrir.

P: Você comenta em seu livro sobre certa visão fantasiosa que “andava muito além do que os olhos podiam ver ou a razão admitir” e alimentava as narrativas extravagantes de uma quantidade considerável de viajantes (em tudo imaginárias ou até sobrenaturais), e que Nicolas-Antoine Taunay “fartou-se” em quantidade e qualidade dessas obras. Por isso, “o” Brasil de Taunay seria povoado por esse tipo de universo cultural. Por que Taunay, o “homem da Ilustração”, sofre essa “triste insolação” pelo “Sol do Brasil”? Em que termos, a realidade superou a imaginação e a realização (ou não-realização) das expectativas de Taunay, o decepcionou em relação ao Brasil? O que pode ter ocasionado essa suposta dissonância cognitiva que fazia Taunay, por exemplo, representar o Rio de Janeiro, em seus quadros, como uma vila italiana?

LMS: Poucos (dos artistas franceses) se adaptaram, talvez mais o (Grandjean de) Montigny que acabou se radicando no Rio de Janeiro e teve um papel fundamental na arquitetura da cidade. Assim como o Debret, que acabou entrando na Academia como associado e como artista brasileiro, e é muito interessante o fato dele ter entrado assim, dessa maneira. Mas todos eles imaginavam que encontrariam uma outra realidade, que de fato, eles não encontraram, ou seja, eles foram contratados, isso é uma verdade inegável, mas eles não se tornaram professores, nem fundadores de uma Academia, como pretendiam. A Academia demorou muito a acontecer. Sim, Debret conheceu essa Academia e atuou nela, mas ela demorou muito para ser fundada e todo o primeiro momento (deles no Brasil) foi muito desolador: perderam um grande mecenas (o Conde da Barca), (Joaquim) Le Breton ficou isolado e alvo de uma série de acusações, então, nada foi muito fácil não.

E para Taunay tudo foi muito mais difícil, porque ele quis vir como pintor de paisagens, mas imaginava que encontraria outro tipo de ambiente, outro tipo de aporte. Ele, crescentemente, vai se desiludindo, inclusive com o que acaba por conhecer sobre a escravidão, que é um pouco o foco do livro e muito o foco da exposição.

Eu tento mostrar no livro todo, Claudio, como essa questão de verdade e mentira é uma coisa muito relativa, não é? Porque ninguém vem com um olhar limpo. O livro todo nesse sentido é um livro de história, mas também de antropologia, que é uma de suas primeiras indagações, não?

P: Exatamente, Lilia, O Sol do Brasil é uma obra que já nasce clássica, mas me ficou essa dúvida: o livro seria um estudo histórico ou antropológico?

LMS: Eu vou tentando mostrar a todo momento como a cultura é uma segunda pele e como ninguém viaja com os olhos totalmente livres, que a cultura é uma espécie de filtro, uma espécie de lente que faz com que a gente enxergue a partir de uma série de pressupostos. Então, é por isso que eu começo com aquele primeiro capítulo que fala dos viajantes do século XVI. Eu fui ler o que o Taunay leu, tentei imaginar como é que ele estava chegando nesse lugar e as dificuldades com as quais ele se deparou, então, eu vi que o Taunay é um personagem interessante porque ele expressa isso tudo com mais clareza, quer dizer, ele expressa esse estranhamento, expressa essa tradução, ele vai para a Itália e se embebe da luz romana, retorna à França, e sua França passa a ser mais romana, depois, ele vem para o Brasil e desenha o Rio de Janeiro como se este fosse uma vila italiana, e assim por diante…


Vista do Morro de Santo Antonio (1816), Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

P: E Nicolas-Antoine Taunay passa a ser um estrangeiro em todos os lugares…

LMS: É justamente esse o meu argumento. Eu acho que no Brasil, Taunay passa a ser visto como um pintor francês que faz um céu muito rebaixado, uma pintura mais “temperada”. E na França, ele vai ser acusado de ter sido muito contaminado pela cor dos trópicos.

P: O artista Nicolas-Antoine Taunay merece um maior reconhecimento no Brasil?

LMS: Eu penso que sim e acho que isso será possível sobretudo com a exposição. O catálogo conta com importantes colaborações, eu sou a curadora, mas não sou uma crítica da arte, nem me considero uma historiadora da arte, apenas um mix de antropóloga e historiadora social. Então, o catálogo conta com a colaboração de críticos de arte renomados como Rodrigo Naves, Pedro Xexeu, Vera Beatriz, Luiz Marques, Luciano Migliaccio e Eliane Dias, que também está me acessorando na exposição.

O Sol do Brasil é um livro de história social e antropologia, enfim, trata do Taunay, claro, chama a atenção para ele, mas trata também do contexto, do momento histórico, ele é quase um pretexto de entrada. A minha opinião é que sobretudo a exposição vai ajudar a recolocar a importância do Taunay no cenário nacional, porque eu acho que se por um lado o Debret foi o grande documentarista do Brasil joanino e do primeiro reinado, o Taunay foi o primeiro a mostrar como a nacionalidade se funda a partir da idéia da paisagem, que é uma interpretação que será amplamente vitoriosa no segundo reinado.

Mas é importante frisar que não se trata de criarmos aqui uma disputa entre Debret e Taunay. Acho que não se questiona a importância de Debret, sobretudo de suas aquarelas que são belíssimas. No entanto, gostaria de chamar a atenção para o fato de que Taunay, ao colocar os pés no Brasil, era o artista mais reconhecido na França, um artista de grande qualidade e que por isso precisa ser devidamente apreciado e reconhecido no Brasil.

Debret, primo de David, estava acostumado a atuar como pintor do Estado, não só fazia pinturas historicas, como também estava habituado a registrar rituais, monumentos, tudo o que fosse necessário para o engrandecimento do Estado. Ele de fato se comporta como o primeiro pintor do rei, ocupa este espaco, será uma espécie de etnógrafo desse Brasil jovem e é com todos os méritos que seu trabalho é reconhecido.

Os portugueses não tinham a tradição da pintura e muito menos da pintura de gênero, então, as poucas imagens que temos do passado, desses momentos históricos, são imagens feitas por Debret e elas ocupam, sem sobra de dúvidas, um lugar privilegiado. Então, não se trata de uma disputa. Debret foi um documentarista e Taunay, ao contrário, com a constante desilusão que sente em relação ao ambiente, vai se isolando na sua propriedade na Cascatinha da Tijuca, fica afastado de fato, convivendo apenas com a colônia de franceses que morava por lá.

P: Falemos então das exposições. O lançamento de O Sol do Brasil antecede duas grandes exposições internacionais da obra de Taunay: a primeira no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro (será inaugurada no próximo 6 de maio) e na Pinacoteca de São Paulo (entre julho e setembro), ambas terão sua curadoria. Conte-nos um pouco mais sobre elas.

LMS: A exposição no Museu de Belas Artes começará no dia 6 de maio. No dia 5, eu farei um lancamento aí no Rio, na Livraria da Travessa (Shopping Leblon). Será um bate papo com que estiver por lá. Vou falar da exposição e do meu livro. A exposição, como disse, abre dia 6, e a grande novidade é que nunca houve uma exposição sobre Taunay, uma retrospectiva sobre sua obra, desse tamanho. Vão ser apresentadas não só suas telas brasileiras, produzidas entre 1816 e 1821, mas será recuperada toda a sua trajetória, desde seu período de formação na França até sua viagem à Itália, quando ele foi membro da Academia Francesa em Roma. Até suas telas napoleônicas, imensas, que são mesmo de encher os olhos, virão de Versailles. Também poderão ser vistos os seus retratos que são belissimos. A exposição tambem terá um vídeo no qual, em uma especie de bate papo, eu vou narrando a biografia de Taunay. O visitante também poderá interagir com algumas telas, ao pressionar um dispositivo, ainda não sei exatamente como vai ser, mas o visitante poderá ouvir uma explicação mais completa sobre aquela tela. Acho que está bem bolada, serão quase 70 telas, ou seja, é um feito. Então, eu acho que a exposição será bem bacana. Estamos todos muito animados.

P: Daremos todos os detalhes sobre a exposição aqui no Pontolit. Muito obrigado por participar de nosso bate-pepo, Lilia. Apenas, mais uma pergunta, poderia nos antecipar alguma coisa sobre seu próximo projeto?

LMS: Ainda não está definido, mas poderá ser sobre Lima Barreto.

Assim, Lilia Moritz Schwarcz lança novas e importantes luzes sobre vestígios e aspectos históricos (lembremos mais uma vez Marc Bloch: “causas não devem ser postuladas, mas buscadas”) e nos reforça uma certeza: Lima Barreto merece (e todos nós, seus atuais e futuros leitores, agradecemos).

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