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Leetspeak: Sérgio Rodrigues

O experiente Sérgio Rodrigues é jornalista e escritor (não necessariamente nesta ordem, como costuma lembrar). Foi correspondente do Jornal do Brasil em Londres, atuou na Folha de S.Paulo, O Globo, Veja Rio, TV Globo e, nos últimos anos, tem estado à frente de um dos melhores blogs nacionais sobre Literatura, o Todoprosa, primeiro na revista eletrônica NoMínimo, depois em endereço próprio. O autor da novela As Sementes de Flowerville (Objetiva, 2006) fala ao Pontolit sobre Literatura e internet, explica a Palavra da semana, sua coluna na Revista da Semana, e anuncia em primeira mão a estréia do Todoprosa no portal iG, ainda esta semana, novamente com atualizações diárias.


Por C. S. Soares

Pontolit: Fale-nos sobre Palavra da semana, sua coluna na “Revista da Semana”. Recentemente, ao descrever um neologismo, adultescente (que você informa vir de “adultescent”, como registrado pela primeira vez em 1996, eleita, pelo dicionário Webster’s, a “palavra do ano” de 2004) você comentou que o sucesso de uma palavra nunca se funda apenas na lógica interna da língua.Sérgio, o que é mesmo a palavra?

Sérgio Rodrigues: Se você escreve, é praticamente tudo. A coluna da “Revista da Semana”, Palavra da semana, é uma filha de A palavra é…, seção diária que eu mantive por alguns anos no falecido site Nomínimo. Que, por sua vez, tinha sido um desdobramento do meu trabalho com crônicas sobre língua e linguagem. A idéia, com esses textos, era trocar a abordagem professoral que costuma ser dada ao tema por uma mais lúdica, de escritor e não de acadêmico. Isso começou no “Jornal do Brasil” com uma seção chamada Mascando clichê, em 2001. Acabou dando no meu livro “What língua is esta?” (Ediouro), publicado em 2005. Até hoje, para minha satisfação, vira e mexe um desses textos cai em alguma prova de português em vestibular ou concurso público. Gosto muito do tema, e procuro transformar meu diletantismo em trunfo. Parafraseando alguém, a língua é rica demais para ficar entregue apenas a professores de português. Com todo o respeito.

P: Certa vez, o professor Evanildo Bechara, citando Fernão de Oliveira, afirmou que a língua é o que os falantes fazem dela, logo, não pode deixar de ser um reflexo sociocultural das comunidades. Sérgio, o que você acha do acordo ortográfico da língua portuguesa? Recentemente, no “Entre aspas”, da Globo News, você assumiu uma postura cética em relação ao acordo. Mais recentemente, no seu blog Todoprosa, você propôs um debate público com mais profundidade a respeito do assunto. De que forma você entende que o debate poderia colaborar com o acordo, que, aparentemente, como você mesmo reconhece, nos parece mera questão de tempo?

SR: Minha opinião sobre o acordo está mudando. No debate da Globonews, eu estava muito fixado no que ele tem de limitado, de insatisfatório. Se é para ter uma reforma meia-sola, como a que acabou saindo, melhor não mudar, eu pensava. Hoje estou revendo essa visão, que me parece acomodada e de curto prazo. Acho que os benefícios de uma integração ortográfica, principalmente se pensarmos num prazo longo, superam todas as desvantagens. É claramente prejudicial e até meio constrangedor manter o cisma entre os falantes de português neste mundo globalizado. Quanto à discussão que tentei levantar - sem muito sucesso, aliás - acho que o assunto merece e até exige um debate amplo. Talvez seja tarde para mudar a reforma, mas não para nos posicionarmos com clareza sobre algo que vai mexer com a vida de todo mundo. Esse silêncio emburrado que cerca o assunto no Brasil não depõe muito a favor de nossa maturidade intelectual. Uma pena.

P: Fale-nos sobre As Sementes de Flowerville, seu primeiro romance, lançado em 2006. A vida imita a arte?

SR: Não, neste caso eu acho que a arte imita a vida, mesmo. Flowerville é uma Barra da Tijuca elevada ao cubo, e seus personagens amorais uma caricatura da classe média brasileira. A idéia era fazer uma farsa de leitura compulsiva, uma distopia cheia de humor negro com ritmo de história em quadrinhos, mas que fosse ao mesmo tempo um espelho distorcido de coisas muito sérias, muito doloridas deste nosso país absurdo. Talvez por isso alguns críticos não tenham entendido o livro muito bem. Parece descartável mas é sério? Parece sério mas é pop? Rolou uma perplexidade. Mas sempre achei que, sem correr riscos, a literatura não tem graça.

P: Mas a perplexidade gerada pela dúvida (ou advinda desta), nesse caso, me parece, não deixa de ser um reconhecimento ao esforço do autor. Creio que você tenha atingido o objetivo de apontar a imagem distorcida (e talvez a distorção não esteja no espelho). O Sementes é uma novela de aproximadamente 130 páginas. A escolha por um texto não tão extenso foi proposital? Acompanho seus “Sobrescritos” no Todoprosa e observo que você vem se especializando em minicontos. Aprender a escrever textos cada vez mais curtos (ou melhor, passar a sua mensagem em textos cada vez mais curtos) é uma das necessidades do escritor dos nossos dias?

SR: Olha, pode ser, mas meu trabalho sempre foi no sentido contrário: o de escrever textos cada vez mais longos. Os contos do meu primeiro livro, O homem que matou o escritor (Objetiva, 2000), que são provavelmente a melhor coisa que já escrevi, são contos longos, com uma média de vinte, trinta páginas cada um. “Flowerville” é uma novela ou romance curto, mas nem por isso deixa de ser minha narrativa mais longa até hoje. O próximo romance deve ser maior. Isso é resultado de um esforço, de um aprendizado sobre a estrutura, a sustentação de um arco narrativo de longo alcance. O texto curtíssimo, para mim, sempre foi fácil, natural, mas de alguma forma insatisfatório. Não generalizo isso. Não estou traçando aqui uma hierarquia entre os gêneros, apenas falando de um sentimento que é meu, particular. É claro que textos curtíssimos podem ser geniais, embora a imensa maioria seja apenas sintoma de preguiça do autor. Agora, a série Sobrescritos do Todoprosa, que tem me dado muito prazer escrever, vai realmente na contramão de tudo isso que eu acabei de dizer: é minha reconciliação com o miniconto. Na velocidade da internet, é claro que essa ligeireza funciona bem.

P: O Todoprosa é, na minha modesta opinião, um dos blogs mais simpáticos e importantes sobre Literatura no Brasil. Os artigos, nota-se, são sempre pertinentes e cuidadosamente escritos. Fale-nos como surgiu a idéia, qual a sua importância na carreira do jornalista e escritor? Os blogs poderão, um dia quem sabe, serem considerados Literatura?

SR: Obrigado pela avaliação generosa do blog. Ele surgiu também no Nomínimo, para suprir uma necessidade do site na cobertura de literatura. Eu já era escritor publicado e tinha muitos anos de experiência no jornalismo cultural, inclusive resenhando livros, mas nunca me imaginara fazendo um blog. Gostei da experiência, e hoje o Todoprosa cumpre um papel importante no meu equilíbrio como escritor. Não me deixa ficar fechado demais no que estou escrevendo no momento, me força a abrir as janelas, dar uma arejada. Mas acho importante encarar os blogs apenas como meio. Se você puser literatura ali dentro, é literatura. Se puser lixo, é lixo. Ele em si é só um meio, e um meio ótimo, por permitir a interatividade, os links etc.

P: A avaliação não é generosa, é justa. O TP é um exemplo a ser seguido no que diz respeito a eficiência (e eficácia) de blogs como veiculos efetivos de comunição. Em relação aos blogs em geral, concordo, eles são apenas meio, “armazenadores de conteúdo” (como os livros afinal). Mas lhe pergunto: poderão, um dia, chegar a ser não um meio, mas um fim? Explico: como o objetivo final de publicação mesmo, ou pelo menos, como já se observa em casos no exterior, uma ferramenta de auxilio ao escritor para que, interativamente com seus leitores, ele possa “validar” o conteúdo (seja ficcional ou não), abrindo acesso e permitindo comentarios, criticas e sugestões antes da publicação? (Nota: um bom exemplo é o livro “em progresso” The Googlization of everything, de Siva Vaidhyanathan, um projeto do autor em parceria com o Institute for the Future of the Book).

SR: Não duvido que a criatividade de quem já nasceu na nossa era virtual encontre para essas ferramentas usos que nós, o pessoal da transição, nem sonhamos. Tem sido assim ao longo da história de todos os meios. Mas não estarei entre esses pioneiros, posso lhe garantir. Isso de “validar o conteúdo” com os leitores me parece um pesadelo.

P: Novos projetos para o biênio 2008/2009?

SR: Estou escrevendo um romance baseado num episódio histórico que por enquanto não convém adiantar. Só garanto que não tem nada a ver com Santos Dumont! Outra coisa, esta em primeira mão: o Todoprosa está voltando agora em maio a ser um blog profissional, renovado diariamente, como nos tempos do Nomínimo. Vai ficar dentro do iG, mas continuará sendo possível chegar lá através do endereço de hoje, http://www.todoprosa.com.br.

P: Ótimas notícias, Sérgio. Em relação ao livro, você como bom mineiro, dá poucas informações, mas saiba que novos livros discutindo o gênio de Santos Dumont serão sempre bem vindos. E assim, o TP volta a ser diário, para a felicidade de todos os seus interessados e participativos comentadores. Qual a da estréia do TP no iG? O formato será o mesmo? Haverá algum evento especial para marcar a data?

SR: O blog será basicamente o mesmo de sempre. A mudança, a menos que haja um percalço tecnológico, rola nos próximos dias, ainda esta semana. A principal diferença é que o Todoprosa volta a ser diário e mais atento ao pulso do mercado, aos lançamentos, como era em seus primeiros tempos. E falando para uma audiência potencialmente maior, o que tem tudo para tornar mais animada a discussão entre os leitores, que sempre foi um dos pontos fortes do blog. Talvez algumas novas seções acabem sendo criadas com o tempo, mas nada dramático. Acho que a simplicidade do formato é uma qualidade que deve ser preservada.

P: Por fim, Sérgio, o que você achou das novas histórias do We tell stories, projeto da Penguin Books ? A minha opinião é que são mais plausíveis e realistas do que aquela primeira, The 21 steps, baseada no Google Maps.

SR: Sim, o nível das histórias é desigual, como não podia deixar de ser, mas depois daquela estréia desastrosa a média subiu muito. Existem bons caminhos sendo apontados ali. Gostei principalmente da experiência chamada Your place and mine, escrita em tempo real, com os comentaristas participando em tempo real. Mais ou menos na linha do que você mencionou há pouco, e que eu chamei de pesadelo. Acompanho essas coisas com o maior interesse. Só não me peça para escrever assim. Gosto demais do texto-texto, e o espaço de exploração que ele oferece ainda me parece longe de se esgotar. Prefiro ficar trabalhando por aqui.

Acesse também:

Todoprosa

As Sementes de Flowerville



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