Histórias Sobrenaturais de Rudyard Kipling
Rudyard Kipling, um dos autores mais lidos (e pirateados) na virada dos séculos XIX e XX, escreveu em The Uses of Reading (Os usos da leitura), capítulo de A Book of Words (Um livro de palavras), que “apenas quando lemos o que foi escrito há muito tempo, compreendemos quão moderno é o melhor das coisas antigas”. Se Kipling, o mais assombrado de todos os escritores ingleses, premonitoriamente, advogava em causa própria, não o sabemos. Concluímos apenas que se o fez, não estava errado.
Por C. S. Soares
Era uma vez e outra e outra mais. Assim como nos contos infantis dissimulamos nossos medos e enquanto eles existem os dissimulamos. Na obra de certos escritores como Rudyard Kipling, inglês nascido em Bombaim, Índia, é tênue a divisória entre as histórias infantis e os mais aterrorizantes contos de terror.
Em Something of Myself (Algo de mim mesmo), autobiografia póstuma e incompleta, lançada em 1937, Kipling aconselha “Quando o seu demônio está no comando, não queira pensar conscientemente. Solte-se, espere e obedeça”.
Com a suposta garantia (e líquida segurança) de que a seqüência de cenas se desenrolará em um tempo indeterminado (uma pseudo-garantia da chave de abertura “era uma vez”), a imaginação de crianças (e adultos) tem a possibilidade de se livrar da realidade dura, acachapante e inevitável.
Pode-se achar sinal de fraqueza, aceitar, resignadamente, que “o que não existe, pode muito”, como costuma repetir um amigo meu (assinalando o quanto podemos ser assombrados por nossos pesadelos, inclusive literários), mas também se transforma na força (a imaginação é construtora) de um símbolo, de uma metáfora (era uma vez, quantas vezes quisermos), que revelará indiretamente, pois diz sem ameaçar, como enfrentar de peito aberto, às vezes com grande dose de ironia suicida até, os nossos mais assustadores medos.
Os contos (os infantis e os assombrados) nos ajudam a representar simbolicamente esses medos. Kipling, como poucos, o sabia. A reparação pelo final feliz ou não (ou mesmo em suspensão), aproximam a estrutura dos seus contos, da de um sonho, com deslocamento e condensação.
Jorge Luis Borges (como não lembrá-lo?), em 26 de março de 1937, toma emprestado de Marc Twain, “que tantas noites se debruçou sobre o problema da autobiografia”, um pensamento e o aplica à mesma “Something about myself” que venceu Kipling: “Não é possível que um homem conte a verdade sobre si mesmo, ou que deixe de comunicar ao leitor a verdade sobre si mesmo”.
Os fantasmas e os demônios foram companheiros da viagem do autor de “The Jungle Book” (O Livro das Selvas) — ele mesmo viveu sua cota de ocorrências inexplicáveis — e lhes contaram ao pé do ouvido o que viram nas trevas das quais fugiram.
“Histórias Sobrenaturais de Rudyard Kipling” (Bertrand Brasil, 1995) é uma compilação de 33 contos, organizada por Peter Haining em celebração ao cinqüentenário da morte do mestre, em 1986.
A tradução de José J. Veiga e uma motivação a mais para nossa leitura. Os contos são organizados em ordem cronológica de O sonho de Duncan Parrenness (1884), quando o autor contava apenas 19 anos, até O jardineiro, publicado em 1926.
Nas assombradas páginas desse livro, fazemos contato com vários clássicos da literatura sobrenatural assinadas pela pena atormentada de Kipling, como o repugnante O signo da besta, definido por críticos como matéria peçonhenta, e a candura de Eles, comparado, muitas vezes, ao clássico do sobrenatural A volta do parafuso, de Henry James.
Em Jerinquixá Fantasma (1885), um dos contos mais perturbadores da coletânea, logo nas primeiras linhas já conhecemos o desgraçado destino de Pansay. Menos por sua morte — que Heatherlegh, o “médico mais simpático do mundo”, atribui ao Sistema (“um homem fazendo o trabalho de dois homens e meio”) — , do que pelo fato de não ter conseguido esgotar, na sua escrita febril (ou mesmo com sua própria morte), sua “própria história de fantasmas”, já que a “tinta” (e essa era sua esperança) o ajudaria a descansar a cabeça, o espírito e a se livrar da procissão de homens, mulheres, crianças e demônios aos pés de sua cama (algo que, nos assegura o maquiavélico narrador, também é uma função da Literatura).
Sleipner, Antiga Thurinda, um conto de título estranho (Sleipner, na mitologia nórdica, foi um cavalo de 8 pernas), publicado originalmente em 12 de maio de 1888, conclui que um cavalo e seu montador, ambos mortos numa corrida de obstáculos, certas vezes, podem não conseguir dormir o sono eterno.
Minha História Real de Fantasma, outro conto de 1888, é um conto de terror clássico, com o narrador passando a noite em uma casa tida como mal-assombrada por fantasmas indianos, que, segundo Kipling, “devem ser tratados com certa reverência”.
A realidade mental, sabemos, compreende diversos mundos possíveis, seres imaginários, medos indescritíveis, um inesgotável “monstruário” inadmissivelmente poderoso e inebriante.
Existe, por conseqüência, uma terapêutica embutida nos contos de terror (e nos infantis, claro), algo como a segunda face de uma mesma moeda, uma segunda chance, um reboot.
Portanto, não nos surpreende, que Rudyard Kipling, ganhador do Nobel de Literatura de 1907, além de seus irrepreensíveis contos de terror, tenha se tornado o autor de magníficos e inesquecíveis clássicos infantis como Kim e O Livro das Selvas.
Rudyard Kipling nasceu em Bombaim, no longínquo 1865. Aos seis anos, foi estudar na Inglaterra. Foram anos negros e a casa em que morou, aos cuidados de uma mãe adotiva sádica, seria, anos mais tarde, chamada por ele de “A casa da desolação”.
Voltou para a Índia em 1880 e se tornou jornalista. O primeiro livro, “Departamental Ditties”, uma coletânea de versos satíricos, seria publicado em 1886. Dois anos mais tarde, com “Plain Tales from the Hills”, se tornaria conhecido na Índia e na Grã-Bretanha, para onde voltaria no ano seguinte.
Kipling viajou por todo mundo, inclusive ao Brasil, onde esteve em 1927 (Leia mais em “As Crônicas do Brasil”, de Rudyard Kipling, Editora Landmark, 2007, tradução de Luciana Salgado).
À imensa altura que a sua fama de escritor alcançou, equiparou-se a das tragédias familiares. Perdeu sua filha Josephine, aos 6 anos, e seu filho, John, foi dado como desaparecido em 1915, na batalha de Loos, França. Tornou-se ainda mais sombrio.
Kipling foi acusado, de chauvinista e imperialista, mas foi, acima de tudo, um estilista, um apaixonado pela técnica, um escritor para quem o ato de escrever era um prazer físico. Sugeriu certa vez que “os melhores contos são os não vêm a público – por motivos óbvios.”
Qualquer texto (inferimos, sem a necessidade de nos lamentar) é fragmentário e circular. Mais importante que a constatação dessa invencível (e necessária) incompletude é a sua aceitação.
Assim, navegamos entre os contos, entre os livros, sucessivamente, na vã tentativa de reconstituir a obra, mas ela é múltipla e se encontra em todos as lugares. Ainda assim, é uma verdade irrefutável: um livro existe é para ser navegado.
O incrédulo, para quem o copo está meio vazio, reclama: mas como, se não temos bússola? Respondo (entre um gole e outro): guiemo-nos pelas estrelas.
Cada livro, ou ainda cada experiência de leitura de um livro, a interação entre leitor, livro, imaginação e possibilidades, é um mistério em si, um universo a parte.
Leitores, navegadores de si mesmos, lancemo-nos ao mar. As assombrosas (e assombradas) Histórias Sobrenaturais de Rudyard Kipling poderão ser exumadas de uma das surpreendentes prateleiras da Biblioteca Popular Municipal Marques Rebelo, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro.
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