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José de Alencar apresenta Castro Alves a Machado de Assis

Castro Alves chega ao Rio de Janeiro

Em fevereiro de 1868, José de Alencar recebia a visita de um jovem poeta baiano e o apresentava a Machado de Assis


 

Em 1868, José de Alencar recebia a visita de um jovem poeta baiano (O Rio de Janeiro ainda não o conhecia). Seu nome: Castro Alves. Trazia o poeta, uma carta de recondação assinada por Fernandes da Cunha. Alencar lamentou não ter naquele momento, a seu lado, a “plêiade rica de jovens escritores”: Pinheiro Guimarães, Bocaiúva, Múzio, Joaquim Serra, Varela, Rozendo Moniz e… Machado de Assis. Afinal, escrevia Alencar, “em literatura não há suspeições: todos nós, que nascemos em seu regaço, não somos da mesma família?”

O dialogo epistolar entre José de Alencar e seu amigo Joaquim Maria Machado de Assis foi publicado pelo “Correio Mercantil”, do Rio de Janeiro, em 18 e 22 de fevereiro de 1868.

Carta de José de Alencar

Tijuca [Rio de Janeiro], 18 de fevereiro de 1868.

Ilmo Sr. Machado de Assis. — Recebi ontem a visita de um poeta. — O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração e não do resto. — O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a S. Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. — Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos; a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. (…) Felizmente estava eu na Tijuca. O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão. — Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul. — Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido (…) Foi assim, a sorrir entre os nítidos véus, com um recato de donzela, que a Tijuca recebeu nosso poeta. — O Sr. Castro Alves lembrava-se, como o senhor e alguns poucos amigos, de uma antigüidade de minha vida; que eu outrora escrevera para o teatro (…) Publicada no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1868.

Resposta de Machado de Assis

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.

Exmo. Sr. — É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V. Exa, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz intróito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre. — Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. (…) Quanto a V. Exa, respirando nos degraus da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai meditando, sem dúvida, em outras obras-primas com que nos há de vir surpreender cá embaixo. Deve faze-lo sem temor. Contra a conspiração da indiferença, tem V. Exa um aliado invencível: é a conspiração da posteridade. Publicada no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 1 de março de 1868.

Fonte: Jornal de Poesia



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