Machado de La Mancha

Machado de La Mancha
Um ensaio de Carlos Fuentes sobre Machado de Assis

Há poucas semanas, chegou em minhas mãos um ensaio do escritor Carlos Fuentes sobre Machado de Assis intitulado “Machado de La Mancha” (Fondo de Cultura Económia del Mexico, 2001). Logo em suas primeiras linhas pode ser lido:
“El escritor brasileño Machado de Assís, nacido en 1839 y muerto en 1908, es el autor de Las memorias póstumas de Blas Cubas, una novela que no sólo es heredera de la tradición cervantina sino que la potencia y reactualiza. Machado de Assís es la estrella más brillante del cielo novelístico iberaomericano del siglo XIX. Este ensayo le rinde un homenaje incondicional”.
Carlos Fuentes Macias, sabemos, nasceu a 11 de novembro de 1928, na Ciudad de Panamá. Viveu em diversas cidades do mundo (inclusive, Rio de Janeiro), fez seus estudos no Chile, Argentina e Estados Unidos e, na década de 1970, foi embaixador em Paris.
Escritor abundante, produziu romance, novela, teatro e ensaio literário e colaborou com jornais. Ganhou (entre outros) os prêmios Rómulo Gallegos, Alfonso Reyes, Miguel de Cervantes, Legião de Honra da França, Príncipe de Asturias de las Letras e o I Prêmio a la Latinidad, concedido pelas Academias francesa e brasileira de Letras.
Mas voltemos ao ensaio. O Fondo de Cultura Económia del Mexico publicou-o no ano de 2001. Poucos anos antes, em 1997, o mesmo tema foi abrodado em palestra histórica proferida na Academia Brasileira de Letras.
A sensibilidade de Fuentes compreende Machado como “um dos escassos milagres da literatura iberoamericana no século XIX, o seu maior romancista, assumindo no Brasil, a lição e a tradição de Cervantes, “La tradicion de La Mancha”, da qual se esqueceram os romancistas hispanoamericanos do México e da Argentina que viveram o século XIX”.
Mas em se diferem a tradição “de La Mancha” — como a denomina Fuentes –, que celebra a ficção e é revalidada por Machado, e sua contraparte, a tradição “de Waterloo”, que Fuentes percebe como a afirmativa da realidade?
A tradição de “Waterloo”, em Literatura, é aquela que surge do contexto social. Já a de “La Mancha”, descende de outros livros, faz-se na medida em que é escrita e lida. Se por um lado “Waterloo” lê o mundo, é ativa e se baseia na experiência (ou seja, nos diz o que sabemos), “La Mancha”, por outro, é lida pelo mundo, é reflexiva e se baseia na inexperiência (nos diz o que ignoramos).
Uma das características das tradições cervantinas, lembra Fuentes, é a da “loucura pela leitura”, que origina a ação de “Don Quixote” e transcende o plano realista. Em “Don Quixote” (assim como em “Tristam Shandy”, de Lawrence Sterne, “Jacques, o fatalista”, de Denis Diderot, e, claro, nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado) o romance se aceita e se reconhece como ficção.
Se “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, como no prefácio de Machado, increve-se na tradição como leitor de Lawrence Sterne, este por sua vez, em seu “The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman”, se inscreve na tradição de “La Mancha”, quando afirma haver tomado “sua forma do incomparável cavaleiro de La Mancha…”
“Machado de Assis, pois todos nos damos conta de que ele é o único grande romancista da América Latina no século XIX, é herdeiro de uma tradição que só a vai recuperar Jorge Luis Borges, no século XX”, afirma Carlos Fuentes, e lembra que a estratégia borgiana de romper a idéia absoluta com o acidente cômico já está presente em Machado quando em “Dom Casmurro” (aqui Fuentes confunde Bentinho com Brás Cubas) o narrador declara sua intenção de escrever o livro que nunca escreveu, a “História dos Subúrbios”.
Uma das passagens mais interessantes do ensaio é a comparação que o escritor mexicano faz entre “El Aleph” de Jorge Luis Borges e “El Aleph” que Machado descreve em seu”Memórias Póstumas”. Se no livro de Machado (capítulo 7, intitulado “O delírio”), Brás Cubas imagina uma totalidade simultânea, em que tudo se vê e entende ao mesmo tempo, o mesmo ocorre em “El Aleph”, do argentino, escrito 68 anos depois.
De Machado de Assís, o milagroso “Machado de La Mancha”, conclui Fuentes, descendem Macedônio Fernandez, Borges, Cortázar, Nélida Piñon e outros grande escritores da Ibéria e das Américas. E é através da imaginação sem fronteiras de Machado de Assis, esse “milagre” brasileiro, que continuamos imaginando, decifrando enigmas e nos decifrando. 
Acesse também:
• Site oficial do escritor Carlos Fuentes
• Machado de La Mancha, por Carlos Fuentes
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