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Dom Casmurro: o romance como tabuleiro de xadrez (*)

Dom Casmurro: o romance como tabuleiro de xadrez (*)

Machado foi um grande entusiasta do xadrez. Jogou partidas amistosas, disputou torneios, solucionou e compôs problemas enxadristicos. O xadrez ajudaria a explicar o gênio de Machado de Assis?


O escritor Vladimir Nabokov (um grande enxadrista) considerava que escrever um romance se assemelhava à composição de um problema enxadrístico. Reforçou a idéia em algumas de suas obras (talvez todas). Em “The Gift”, romance de 1937, por exemplo, lembrou a dificuldade inerente ao processo de criação de um romance, “dolorosa”, no sentido em que se deve manter o controle “do jogo” como um todo, sem no entanto perder de vista cada movimento ou jogada específica.

Não conheço um estudo comparativo entre as obras de Vladimir Nabokov e Machado de Assis, mas é quase certo que a mesma dificuldade identificada pelo escritor russo-americano estivesse no meio das preocupações de Machado de Assis no momento em que cinzelava o seu “Dom Casmurro”.

Machado, sabe-se, foi um grande entusiasta do xadrez. Jogou partidas amistosas, disputou torneios, solucionou e compôs problemas enxadrísticos para diversos periódicos de sua época.

Diante de tanta dedicação, naturalmente, surge uma pergunta, penso, inevitável: o xadrez ajudaria a explicar o gênio de Machado de Assis?

O hábito, alertava o historiador Marc Bloch, não traz perigo, já que não engana ninguém. Por isso, quero recordar aqui “Dom Casmurro” a partir de algumas observações pessoais, talvez arriscadas (como o próprio xadrez), mas, friso, pessoais.

O livro, sabemos, é inesgotável. Lido — certamente não serei o único a tê-lo percebido –, nos deixa a impressão de que, para além do próprio romance, seja a representação (em notação arbitrária) de uma partida de xadrez cujos movimentos de ataques, defesas e sacrifícios, em sua infinidade de combinações possíveis, foram problematizados por seu autor.

“Dom Casmurro” é xadrez em prosa, com jogadas e padrões enxadrísticos a serem decodificados e extraídos do romance, e seus leitores são enxadristas em potencial.

Não deve nos causar surpresa o fato do xadrez ter seduzido Machado de Assis, um autor que centrou seu interesse na sondagem psicológica e que como poucos buscou compreender os mecanismos que comandam as ações humanas, fossem elas de natureza espiritual ou decorrentes da ação que o meio social exerce sobre cada indivíduo, tudo temperado por uma profunda reflexão. Xadrez é acima de tudo lógica, memória e (por que não?) imaginação.

Como o poeta romântico francês Alfred de Musset, Machado de Assis foi problemista e publicou vários de seus enigmas de xadrez em periódicos nas décadas de 1870 e 1880, além de manter rica correspondência com as seções especializadas desses periódicos e ocupar posição destacada nos círculos enxadrísticos no tempo do Império.

Ao longo da história, tem sido grande o interesse pelo jogo de xadrez entre os que abraçam o ofício das letras. Uma lista (incompleta) de escritores-enxadristas incluirá, além de Machado e Nabokov, L. Frank Baum, Lewis Carroll, Miguel de Cervantes, Charles Dickens, Dostoievski, Conan Doyle, Goethe, Ibsen, Kipling, Sinclair Lewis, Mailer, Melville, Orwell, Poe, Pushkin, Shakespeare, Shaw, Asimov, Tolstoi, Vonnegut, Wells, Yeats, Zweig, Stevenson, Balzac, Borges, Rushdie e Amis.

Jesús Gonzáles Bayolo confirmou na conferência intitulada “El Ajedrez es La piedra del intelecto” que “o enxadrista não esquece de Caíssa”, a ninfa da mitologia grega considerada a Deusa do Xadrez. A relação entre Caíssa e o jogo nasceu da cabeça de um poeta, Sir Willian Jones, que em 1763 escreveu um poema intitulado Caíssa ou o jogo de xadrez.

A pergunta, como o jogo, é eterna e filosófica: Mas afinal de contas, o que é o xadrez?

A resposta não será exata, nem unânime, e, certamente, nos levará a interessantes e enriquecedores labirintos de idéias, bifurcações tão numerosas quanto à quantidade de posições legais das peças sobre o tabuleiro.

O “jogo eterno” é um dos mais populares do mundo, pertence à mesma família do Xiangqi e do Shogi e, segundo os historiadores do enxadrismo, se originou do Chaturanga, praticado na Índia no Século VI. A quantidade de movimentos possíveis no tabuleiro está situada entre as potências de 1043 e 1050 com uma árvore de complexidade de aproximadamente 10 elevado a 123 (determinada pelo matemático norte-americano Claude Shannon).

No centenário da morte de Machado de Assis, o autor e sua obra continuam inesgotáveis como as possibilidades de lances de uma partida de xadrez.

Além da própria vida, certos livros sabem fazer as vezes de xadrez. O estranho circular de seu labiríntico tabuleiro, tecido de palavras, mais de 100 anos depois, ainda nos surpreende. “Dom Casmurro” é um exemplo contundente de que ao leitor-enxadrista, Machado não deixa outra escolha a não ser jogar uma partida “às cegas”, já que o leitor-jogador não tem visão completa do tabuleiro e necessita “guardar as posições de memória” (no caso, a de Bentinho).

Machado de Assis, como o jogador de xadrez de “O lobo da estepe”, de Hermann Hesse, dá lições sobre a formação da nossa personalidade. As peças com que jogam escritor e leitores, transformam o romance em um xadrez coletivo.

Em algum lugar, no meio daquelas páginas, Machado ainda joga. Jogamos com ele. É pela leitura que movemos as peças e o autor realiza o seu lance de mestre, segue para a próxima mesa (ou livro aberto), executa outro movimento, e outro e mais outro, completa o circuito e volta ao início. O próximo movimento do enxadrista Machado de Assis é um enigma entre tantos (a ressaca no olhar de Capitu é apenas um deles).

Para ler Machado será sempre necessário mantermos “vista pronta e paciência beneditina”, como já nos alertava o próprio autor em “Iaiá Garcia”, último romance de sua “primeira fase”.

Pistas essenciais para o estudo da obra do grande escritor brasileiro serão descobertas nos labirintos do tabuleiro, no contínuo movimento de suas peças, pois — como também nos lembrou Vladimir Nabokov –, romances são como partidas de xadrez, ou seja, uma série de movimentos de ataques, defesas, gambitos, capturas, roques e xeques.

É apenas um jogo, sabemos, mas respira, como a própria vida.

(*) Adaptado do artigo “Machado de Assis, o enxadrista”, de C. S. Soares, publicado na Revista Brasileira (Especial centenário da morte de Machado de Assis), da Academia Brasileira de Letras



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