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Leetspeak: José Castello

José Castello nasceu no Rio de Janeiro, mas mora em Curitiba. É autor de O poeta da paixão (Companhia das Letras, 1993); Vinícius de Moraes: uma geografia poética (Relume-Dumará/Rioarte, 1999); João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma & diários de tudo (Bertrand Brasil, 2006); Inventário das sombras (Record, 1999); Fantasma (Record, 2001); Pelé: os dez corações do rei (Ediouro, 2004) e A literatura na poltrona (Record, 2007). Hoje, Leetspeak recebe diversos Castellos: o jornalista, o crítico literário, o romancista, o biógrafo e (antes de todos) o também talentoso e criativo leitor.


Por C. S. Soares

Ah! interromper-se o fluxo que nos leva,
a água que flui fazer-se imóvel fonte,
parado sonho a vida solta no ar…

Não vermos fosso, muro, fria treva,
e adiarmo-nos além deste horizonte,
sem outrora, num hoje circular.

(Abgar Renault)

Houve uma vez um verão em que José Castello foi Robinson Crusoé. Descobria, por volta de seus 11 anos, que certos livros atordoam e abrem horizontes muitas vezes inesperados. Era a Literatura que se lhe apresentava. Desde então, Castello foi e tem sido muitos livros. Leitores são um pouco os livros que lêem: “o livro de Defoe era a minha história, Robinson era, de alguma forma, eu mesmo”, lembra Castello.

Somos feitos de tempo. Omnia Fluunt. Tudo flui, mas a Literatura parece conseguir vencer esse fluxo pelo qual a vida se escoa. Enquanto lemos, tudo parece ficar em suspenso.

No estranho labirinto circular das páginas escritas, leitores (não apenas os inventados por Borges) também se tornam personagens. Através do próprio ato de ler (arte da microscopia, da perspectiva, do espaço, segundo Piglia) é que se constrói o espaço entre o imaginário e o real. É aí que os leitores se instalam e (tal qual os escritores) inventam suas ficções, pois a ficção não se realiza apenas na escrita, depende da imaginação do leitor. Escreve-se não para o leitor, mas por intermédio dele, lembra-nos Stephen Koch.

Em José Castello, reconhecemos o talento do jornalista, do crítico literário, do romancista e biógrafo. Antes de todos eles, Castello foi e continua sendo um leitor dos mais originais e criativos.

Ao ler suas crônicas semanais (a dos sábados, no “Prosa & Verso”, de O Globo), é como se estivesse lendo os diários da fantástica viagem de um leitor através de seus livros maravilhosos.

A escrita de Castello, coerentemente, é uma escrita cheia de esperança. Roland Barthes afirmou que “escrever se apresenta sempre como uma esperança” (a de preencher o prazer “atormentado” da leitura), e “esperança”, escreveu Balzac, “é uma memória que deseja”. Escreve-se, enfim, pelo desejo de reescrever o que foi lido.

Assim, José Castello tenta atar (e desatar, pois cada leitura é única) as duas pontas da vida: de Castello a Defoe e a Clarice e a Vinícius e a Cabral e a Pessoa, e novamente a Castello. Afinal, os livros (compartilho dessa esperança) existem para serem navegados, enquanto nos navegam. Livros também são links.

Hoje, o Pontolit recebe, com grande prazer, o leitor e navegador José Castello.


PONTOLIT: O crítico e o escritor, já os conhecemos e aprendemos a admirar. O leitor, indiretamente, a partir de seus textos, o vislumbramos. Mas (uma curiosidade), como José Castello definiria o leitor José Castello?

JOSÉ CASTELLO: Vejo a leitura como uma viagem interior, como uma aventura. Lembro-me da primeira vez em que li o Robinson Crusoe, de Defoe. Eu tinha 10 ou 11 anos. Peguei o livro ao acaso, na biblioteca de uma tia. Levei-o para a casa de verão de meus pais, em Teresópolis, onde passávamos todo o verão. Li Robinson Crusoe, pela primeira vez, e tomei um choque. Sempre fui um garoto solitário, embora não vivesse em uma ilha deserta. Sempre me senti sem companheiros para conversar, pessoas que me entendessem. Sempre senti que, a cada dia, eu tinha que partir do zero e enfrentar minha solidão, que me parecia absoluta e interminável. Em resumo: o livro de Defoe era a minha história, Robinson era, de alguma forma, eu mesmo. É maravilhoso você encontrar, aos 11 anos, em um livro de um autor desconhecido, a narrativa de sua própria vida! Li, reli, reli novamente, não parei de ler o romance de Defoe durante todo o verão. Sabia alguns pequenos trechos de cor. O livro me provocou um profundo impacto. Lendo Robinson, descobri que a literatura não era aquele conjunto de textos solenes e cifrados que os professores me apresentavam no colégio dos jesuítas. A literatura mesmo, a que passou a me interessar, era ligada diretamente à vida. Literatura é aquele livro que te atordoa, que abre horizontes inesperados, que te conduz a visões e palavras surpreendentes, que revela coisas a seu respeito e a respeito do mundo que, antes de ler o livro, você não cogitava. Para mim, isso é, ainda hoje, a literatura.

P: Caro José Castello, o leitor de ficções existe ou é apenas mais um personagem de ficção?

JC: O Eu é uma ficção. Quem pode dizer realmente quem é? Temos nossas ilusões, nossas magras certezas, que sempre mudam, as coisas e imagens e nomes a que nos apegamos. Crescer, eu acredito, é construir-se – é inventar-se! Por isso não acredito nas teorias desenvolvimentistas, que apontam caminhos corretos e fixos de crescimento que devem ser trilhados por todos. Cada um cresce como pode, como deseja, como é capaz de se inventar. Crescer é inventar-se, insisto, então há muito de ficção, há sobretudo invenção e ficção, na vida de qualquer um de nós. O que ocorre quando lemos uma ficção? Há o encontro de nossa ficção pessoal (nosso Eu) com a ficção escrita por alguém. Ler é entrecruzar ficções, que se alimentam, que se desafiam, se perturbam, que entram em luta entre si.

P: Quais as cinco experiências de leitura inesquecíveis do leitor José Castello?

JC: É difícil, muito difícil a pergunta. Vou tentar: 1- Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. 2- Coração das trevas, de Joseph Conrad. 3- Ficções, de Jorge Luis Borges. 4- A paixão segundo GH, de Clarice Lispector. 5- O livro do desassossego, de Fernando Pessoa. Isso, sem falar, nem pensar, nos poetas: Vinicius, Cabral e Pessoa, sobretudo. Mas, se você me perguntar de novo amanhã, posso lhe dar outra lista. Só dois livros dela nunca saem: Robinson e GH.

P: Em Literatura, o que importa mais: o tema ou a entonação do escritor?

JC: O que mais importa, creio, é a voz interior. A voz interior não é só o estilo, ou o tom. É também o que ela carrega: os temas que retornam, as perguntas que insistem, as obsessões sobretudo. A voz interior é a idéia fixa de um escritor. É aquilo que o mobiliza, que o perturba, que ele quer expressar, e também a maneira, a forma, o tom, que usa para expressar isso.

P: Castello, na sua opinião, o que é um escritor original?

JC: Um escritor original é um escritor que encontra sua voz interior e se aferra a ela e não a abandona mais. Pegue Clarice, Pessoa, Rosa, Cabral, Cortazar, Borges, Villa-Matas, Virginia Woolf, Joseph Conrad, Italo Svevo, Samuel Beckett, Javier Marias, Vladimir Nabokov, Paul Auster, Juan Carlos Onetti, Shakespeare, Roberto Arlt, João Gilberto Noll, Hilda Hilst, José Saramago, Gonçalo M. Tavares, são tantos. Escritores cujos escritos não se confundem com os de mais ninguém. Por isso eles são originais: não porque façam isso ou aquilo, rompam com isso ou aquilo, etc etc. Mas porque são eles mesmos e ninguém mais.

P: Em 1967, Nabokov afirmou: “O propósito de uma crítica é o de dizer algo sobre um livro que o crítico tenha ou não lido. A crítica pode ser instrutiva, no sentido em que dá aos leitores, incluindo o autor do livro, algumas informações sobre inteligência do crítico, ou de sua honestidade, ou ambos”. Ao Observatório da Imprensa, citando o paraguaio Roa Bastos, você disse que “um livro só existe na cabeça do leitor”, e esse leitor “lê como quer, como sente, como pode”. Os críticos (e os escritores), antes do ofício, são leitores. Castello, se possível, elucide-nos: o que é (e para que serve) a Crítica Literária?

JC: É uma pergunta que, sinceramente, ainda hoje me faço, e nunca consegui responder com clareza. A princípio, ela é uma “leitura especializada”, uma “leitura autorizada” mas isso não se sustenta: estamos cheios de leitores “autorizados” que escrevem crítica medíocre. Outros acham que ela é um juízo, uma avaliação: mas acho que deve ser muito mais que isso, embora algum juízo sempre se transmita, mesmo quando não se quer. Acho que a crítica literária é, antes de tudo, um gênero literário. É, antes de tudo, literatura também. Só que é uma literatura que parte de outro lugar, parte de outro livro. Ela se disfarça na terceira pessoa, na escrita solene, nos argumentos de autoridade, nas citações, mas é sempre literatura, mesmo quando literatura ruim. Em outras palavras: ela é invenção. Volto ao que já respondi: a crítica literária é uma narrativa, que trata da maneira como um livro determinado atingiu aquele leitor particular. Sim, ela é uma narrativa, e não deixa de ser também uma ficção, na medida em que nela um Eu (uma ficção) trata de outra ficção. Talvez se possa dizer assim: é o diálogo entre duas ficções.

P: Por que a predileção em chamar suas oficinas de “Oficinas da Imaginação” e não “Oficinas Literárias”?

JC: Oficinas literárias pretendem ensinar a escrever. Minhas oficinas não pretendem isso, até porque acredito que isso não se ensina. Ninguém forma um escritor, só ele mesmo se forma e se autoriza. Não há transmissão, há no máximo provocação. Meu pai não tinha livros, só livros oficiais (trabalhava no Senado Federal) e livros didáticos de inglês. Portanto: ele não me transmitiu o amor pela literatura. Se me guiasse pelo tipo de ensinamento que me deram os jesuítas, teria fugido da literatura, e não me apaixonado por ela. De onde veio, em minha vida, a literatura? Não sei dizer – mas veio. Minhas oficinas da imaginação têm por base a leitura de grandes escritores. Não quero ensinar nada. Quero ajudar a alargar horizontes, a ampliar perspectivas e dúvidas, a levantar perguntas. Os poucos exercícios que ofereço pretendem expandir a imaginação dos alunos – mas isso não significa dizer como ela deve ser, para que direção deve ir, etc. Chamo de Oficina da Imaginação para não vender gato por lebre, para que os que se candidatam saibam que ali se faz outra coisa – embora eu mesmo não saiba muito bem o que é. Ali se experimenta a literatura como aventura. Quem achar interessante, venha. Quem quiser aprender a escrever, ou formar-se escritor, ou qualquer outra coisa do gênero, é melhor buscar outro lugar.

P: Castello, por que você desistiu das “Cartas de um aprendiz” (coluna no Rascunho)? É possível o diálogo com os novos autores?

JC: É simples: os autores que critiquei, em maioria, tomaram bastante mal meus escritos. Escrevi essas cartas na primeira pessoa (não escamoteei meu Eu!), no tom informal e coloquial das cartas. Para mim, elas eram uma conversa. Mas os escritores, mesmo os jovens, estão afundados em vaidades. Só querem elogios. Não se arriscam no abismo na reflexão e da dúvida. Ora, se fosse para elogiar, ou ao contrário, para falar mal, não me interessaria escrever. Eu escrevia as cartas para fazer perguntas. A literatura é o reino das perguntas. Mas isso incomodou muita gente, logo senti o risco de ficar com a fama de mal humorado, de inconveniente, e, para me proteger, e também para não ser tomado pelo que não sou, resolvi desistir.

P: Castello, que impacto a internet pode exercer sobre a criação literária?

JC: Sem dúvida é muito grande. Primeiro porque a internet leva a meninada a escrever. Em internetês, seja como for, mas escrever. Depois, porque a internet abre janelas, amplia horizontes. É um abismo, e a literatura é um abismo também. Costumo dizer que nossa mente funciona em Windows. Não pensamos em linha reta, pensamos caoticamente, abrindo janelas e mais janelas, sem saber onde chegar, em forma de abismo. A literatura também faz isso, então creio que a internet estimula a imaginação e portanto estimula a literatura.



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