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Guimarães Rosa, 100: as pessoas não morrem, ficam encantadas

Guimarães Rosa: as pessoas não morrem

Guimarães Rosa, autor universal, nascia há exatos 100 anos


Haveria uma verdade aparentemente inventada — a da ficção — parecendo independente da histórica, mas, de fato, verdade histórica, a qual, solta no ar — no ar psíquico — a sensibilidade ou a imaginação de algum novelista, mais concentrado na sua procura de assunto e de personagens, a apreendesse por um processo metapsíquico ainda desconhecido? – Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa, filho de Florduardo Pinto Rosa (seu Fulô). Francisca Guimarães Rosa (Chiquitinha), nasceu em Cordisburgo, nas Gerais, a 27 de junho de 1908, portanto, há exatos 100 anos.

À obra literária começou a dar à luz, a partir de seus 38 anos. Vieram Magma; Sagarana; Com o Vaqueiro Mariano; Corpo de Baile (novelas, hoje publicadas em 3 partes: Manuelzão e Miguilim; No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão); Grande Sertão: Veredas; Primeiras estórias; Tutaméia:Terceiras estórias. Postumamente, apareceram ainda, Estas estórias e Ave, palavra.

Rosa dizia que escrevendo, repetia o que já vivera antes, e que para aquelas duas vidas, um léxico só não seria suficiente. Ler Rosa é vivê-lo outras vezes, mais do que vivemos, mais do que ele próprio viveu e vive, pois é assim se prova, cientificamente, matematicamente, mediunicamente, que Rosa não morreu (as pessoas não morrem), Rosa ficou encantado, como nos antecipou na passagem de seu discurso (talvez o mais belo de todos) de posse na Academia Brasileira de Letras.

“Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: “Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!” - desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.”

Joãozito viveu muitas vidas. Foi médico, diplomata, acima de tudo escritor, mas sempre em sua textativa (quixotesca) de por fim às dores e aos males do mundo.

Em 27 de junho de 1930, aos 22 anos, casou-se com Lígia Cabral Penna, de 16 anos, com quem teve duas filhas: Vilma e Agnes.

Em 1932, foi voluntário na Força Pública durante a Revolução Constitucionalista e, em 1933, serviu no município de Barbacena, como Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria.

Em 1936, Rosa, o escritor, vê sua coletânea de poemas Magma ser premiada na Academia Brasileira de Letras. Em 46, sai Sagarana, obra reconhecida como um dos mais importantes livros surgidos no Brasil contemporâneo.

Antes, em 1938, foi nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e seguiu para a Europa, onde conheceu Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que se tornaria sua segunda esposa. Durante a 2ª Guerra Mundial, com Ara, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo Nazismo. Em 1985, o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.

Rosa, supersticioso e místico, acreditava na força da lua, nos curandeiros, feiticeiros, na umbanda, na quimbanda e no kardecismo.

Depois de intenso “vai-vem”, lança em 1956 dois livros: Corpo de Baile e o assombroso (mediúnico, segundo o próprio João) Grande Sertão: Veredas.

“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias […] Quanto ao GRANDE SERTÃO: VEREDAS, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas.”

Em maio de 1963, Guimarães Rosa se candidata pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras (na primeira, em 1957, obtivera apenas 10 votos). Na eleição de 8 de agosto, Rosa é eleito por unanimidade. A posse somente aconteceria quatro anos depois, no dia 16 de novembro de 1967.

No meio de 1967, publicaria seu último livro, Tutaméia, um livro hermético, difícil de ser definido.

O discurso de posse de Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras, de todos, talvez o mais belo, foi proferido com voz embargada. Rosa previra, poucos meses antes, a sua travessia, que aconteceria, subitamente, a 19 de novembro de 1967, 72 duas depois de tomar posse na ABL, em seu apartamento em Copacabana. Se “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…”, Rosa estava sozinho (ou “sozinhozinho, não estava”).

“Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas – isso procuro”, escreveu em Grande Sertão: Veredas, “Homem foi feito para o sozinho? Foi.”

Tinha 59 anos. Encantado, acrescentava à sua obra, não um ponto final, mas reticências. Havia se dedicado de corpo e alma à escritura e outras crenças, afinal, não é mesmo delas que são feitos os homens?

Acesse também:

Dossiê Guimarães Rosa

Discurso de Posse de Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras



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