Arquivo de Agosto de 2008
A Literatura “Orientada a Objetos” (*)

A Literatura “Orientada a Objetos” (*)
Literatura na web é serviço, ou seja, software: um processo com entradas, saídas, interatividade e personalização
Pense em um editor de texto: como o Microsoft Word ou o OpenOffice Writer, por exemplo. Agora, responda: afinal de contas, o que é um editor de textos?
1] O software que operamos?
2] O seu código binário (que interage com o hardware)?
3] O uso que dele fazemos (com o qual nosso intelecto interage)?
4] Os “produtos” que dele são gerados?
Imagine que agora esse software é um texto literário (ou qualquer outro) na Web…
O que é esse texto?
1] O romance, conto etc com o qual interagimos?
2] O código binário (bytes, ASCII, HTML) que o constitui digitalmente (processado por hardware/software)?
3] O uso que fazemos dele (processado por nosso intelecto)?
4] O uso que a máquina faz dele (com o qual seus processadores e algoritmos interagem)?
5] Seus “produtos” (entretenimento, informação, aprendizagem)?
Literatura (como tudo na web) é serviço: informação, entretenimento, comércio etc. Serviços são processos (software?), entradas, saídas, interação (com o homem e com a máquina) e personalização.
Lembro aqui a frase de Rosental Calmon Alves, a respeito do jornalismo na Web, mas que também pode ser aplicada à Literatura: “O jornalismo deixa de ser um sermão para ser uma conversação, um diálogo, sem que isso represente o fim do jornalista”.
A Literatura (mapeada ou não) na web também é diálogo. O escritor não morre, mas transmuta, assim como editores, leitores e, claro, a própria Literatura.
A Literatura só tem sentido pela existência do leitor e é direito desse leitor ler e não ler. Se lê, deve ler o que quer, como e quando quiser, afinal, a leitura é onde (e quando) ele, o leitor, se realiza.
Agora, as ferramentas interativas e personalizáveis, em suma o software, permite que ele controle mais esse ambiente. O software absorve (e molda) os hábitos de seus usuários.
Falamos de Web, mas muitas vezes esquecemos um detalhe importante: não há nada de novo. A web e outras aplicações gráficas baseadas em “janela”, em “point and click” de mouses, são representações do paradigma da “Orientação a Objetos” que está no sangue dos projetistas e desenvolvedores de software há, pelo menos, 30 anos.
O meio, sabemos desde McLuhan, influencia a mensagem. A “Orientação a Objetos” está no cerne do Windows, da Web, da Social Web, e de tudo o mais que daí for gerado, inclusive, textos literários.
Em suma, o que digo é que os “objetos” estão aí, percebidos ou não. Isso não é importante. O que realmente precisamos saber é até onde queremos e permitiremos (se tivermos coragem) que nossa imaginação nos leve. Precisamos passar a “página”, ou ainda, o “paradigma de páginas”, como o chamou Ted Nelson.
Queremos fazer da web, um ambiente familiar. Se estamos habituados com livros e páginas, queremos que a Web também o seja. Isto é um erro. A web pode ser mais. A web, como nosso próprio pensamento, é associativa, hipertextual, não-seqüencial.
Se o pensamento, como dizem os budistas, é construtor, como se constrói o pensamento?
Com a Web, caros, nossa dúvida é a mesma: nos apoderamos de um invento que ainda (basta notar as evidências) não sabemos como usar. Ou talvez já o saibamos. Mas ainda nos falta a coragem de pensarmos diferente.
* A orientação a objetos é um paradigma de análise, projeto e programação de software baseado na composição e interação entre unidades chamadas de objetos.
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