Arquivo da categoria ‘contos’
LA SINDONE, POR C. S. SOARES
Por C. S. Soares
Conhece o que está ante os teus olhos – e o que te é oculto te será revelado; porque nada é oculto que não seja manifestado. - Evangelho de Tomé
Você acredita em milagres? A pergunta fora de contexto capturara minha atenção. Pensei: as palavras não conseguem mesmo esgotar uma visão que não se apresenta. No verso do cartão com a inabitual interrogação, encontrei o nome e o telefone do padre Giovanni Fiori, que por suas ações incisivas, idealismo e juventude havia recebido da imprensa o apelido de il bambino terribile de la Chiesa Cattolica di Torino.
Sou Giuseppe Mantovani, jornalista, e afirmo: vivemos em um mundo de versões. Uma obsessiva tentativa de apreensão da realidade me levou a acumular notas sobre ocorrências inusitadas, casos extraordinários que compartilhei, por vários anos, na coluna l’Ultima Biblioteca do jornal La Stampa.
Se acredito em milagres? Antes da pergunta no cartão, não saberia a resposta. Agora eu sei, pois aprenderia com padre Giovanni (e com os acontecimentos verídicos que passarei a relatar) que tudo está em tudo, nada é definitivo, apenas intermediário e fluente, como as águas misteriosas do rio Pó, o rio sem fundo.
Naquela tarde de maio de 2002 eu observava da janela de meu apartamento a placidez de suas águas, quando me lembrei do enigmático cartão recebido pela manhã. A curiosidade de jornalista me fez pegar o telefone.
— Boa tarde, me chamo Giuseppe Mantovani e preciso falar com padre Giovanni Fiori.
— É ele quem fala. Aguardava seu telefonema, precisamos conversar pessoalmente. Que tal amanhã pela manhã?
Marcamos para o dia seguinte, às 8, na Catedral Metropolitana.
Na hora marcada, padre Giovanni me aguardava na entrada principal da Catedral.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Mantovani. Nossa conversa não será uma entrevista, compartilharei confidências. Antes quero levá-lo a um lugar especial.
Seguimos, então, em direção às criptas da Catedral, completamente vazias àquela hora.
— Esse é o Museu de la Sacra Sindone. Aqui realizaremos um percurso de descobertas. Giuseppe, qual a sua opinião a respeito do Sudário?
Disse a ele que sempre considerei o Santo Sudário o mais intrigante e polêmico objeto do mundo. Muitos acreditam que La Sindone seja um auto-retrato, a sangue, de Jesus Cristo.
— E você, Giuseppe, no que acredita? — o padre insistiu.
— Acredito que o Sudário seja uma fazenda surrada, estreita e comprida, envelhecida, manchada de sangue, parcialmente queimada, na qual se percebe, não sem algum esforço, a imagem de um homem barbudo e despido. A imagem no Sudário, chamada de L’Uomo della Sindone, é a relíquia cristã mais investigada e existe uma teoria de que teria sido confeccionada por um artista na Idade Média.
— Para os cristãos isso não tem o menor fundamento. O arcebispo de Turim assegurou que o Sudário pode, e deve, ser reexaminado cientificamente quantas vezes forem necessárias, mas vários cientistas já confirmaram que é improvável que algum artista da Idade Média conseguisse criar uma imagem negativa anatomicamente correta.
Em 1898 o fotógrafo italiano Secondo Pia tirou a primeira fotografia do Sudário e percebeu, espantado, que o negativo de sua foto se assemelhava a uma imagem positiva, o que significava que a imagem do Sudário era, em si, um negativo. Um grande enigma que aturde cristãos e não-cristãos.
Padre Fiori traçou o histórico de polêmicas envolvendo la Sindone: o Mandylion de Edessa, que o Narratio de imagine edessena sugeria que não fosse uma pintura; o incêndio de 1532, que destruiu partes do Sudário; as análises hematológica e microscópica de 1978 e o polêmico teste com o carbono 14 de 1988, cuja conclusão polêmica foi a de que o Sudário teria sido criado na Idade Média.
— Admitimos mais a comunicação pela imagem do que pela palavra. É isso que justifica o Sudário. Ele é o nosso quinto evangelho. O evangelho da imagem. Mais do que isso: o evangelho multimídia, o evangelho do século XXI, o mais completo e minucioso relato da Paixão de Cristo.
Nesse momento, padre Giovanni fez uma pausa, buscou forças e me relatou algo impressionante.
— Sempre estivemos preocupados em saber o que aconteceria se a imagem no Sudário eventualmente desaparecesse. Descobriremos que o Sudário seria o próprio Cristo em estágio de crisálida pronto para emergir glorioso? E o Sudário desabitado? Continuará a capturar nossas atenções? A Igreja, certamente, não quer ter dúvidas. É hora de acordarmos e nos concentrarmos no verdadeiro sentido espiritual do Sudário: Deus ainda acredita em nós.
Padre Giovanni, o homem comedido, senhor de seus atos, exasperado, transformou-se e sobre seu rosto surgiu um semblante de loucura e fúria.
— Estão preparando uma farsa. Em poucos dias começará, sob a justificativa de restauração, a consagração de um novo Sudário. O original será substituído por uma cópia gerada em laboratório nos dias que sucederam o incêndio criminoso da Capela Guarini, em abril de 1997, quando, por alguns dias, o Sudário esteve longe da vista de todos, inclusive daqueles que zelam por sua segurança.
Essa parte da história, confesso, mesmo para um pesquisador do insólito, me pareceu fantástica demais. Como jamais voltaria a ser procurado pelo padre, reforcei em mim essa opinião.
Grande foi a minha surpresa, porém, quando uma onda de reclamações varreu a Itália depois da veiculação, pelo Il Messaggero, da notícia sobre a restauração radical aplicada ao Santo Sudário na nova sacristia da Catedral de Turim, entre junho e julho, sem que uma comissão de especialistas fosse envolvida. Comentei com meu editor a conversa que tivera com o padre meses antes. E tentei, sem sucesso, encaixar a matéria no La Stampa.
Ainda no dia em que conversamos, ao terminar de contar sua fantástica história, padre Giovanni me levou à frente do Sudário, fez uma oração e vaticinou: Cristo nos libertará do Sudário. Finalmente, seremos livres para andarmos por nossas próprias pernas.
— Padre, a pergunta que me faço desde o momento em que recebi seu cartão é de que forma posso lhe ajudar?
— Cartão? Não, Giuseppe, eu não lhe enviei cartão algum. Recebi, há dois dias, uma mensagem me assegurando que logo que você entrasse em contato eu devia lhe contar os detalhes sobre a visão que não se apresenta, pois, tendo ouvidos para ouvir e olhos para enxergar, você não sufocará a palavra, apesar de receber a sua semente entre espinhos…
Ainda assim (para satisfazer a minha imaginação?) tentei sufocá-la.
Hoje compreendo que padre Giovanni foi perseguido, não pelo que sabia, mas por decidir viver a plenitude de sua fé e esperança. O padre seria internado como louco e dias depois o encontrariam enforcado.
Até seus últimos dias, dizem, não se cansou de gritar que Cristo havia ressuscitado, que havia se libertado do Sudário e que estava entre nós. “L’Uomo della Sindone está entre nós!” Eu, desacreditado de mim mesmo, continuo fugindo dos demônios que me atormentam, pois sou o guardião de um segredo e é possível que a circunferência – alguns a chamam contexto, outros destino – esteja se fechando.
Não me restam mais dúvidas. A ignorância me transformou em um idiota que precisou ver para crer. Dia após dia, cubro meu rosto com as mãos, não para me manter cego às evidências, mas para esconder as lágrimas. Então, escreverei (o que mais posso fazer?), pois é minha responsabilidade narrar o Evangelho de la Sacra Sindone.
Aquela pergunta não me atormenta mais. Sim, eu acredito em milagres. Eles acontecem o tempo todo. Ainda dependemos de dolorosos óculos para enxergá-los. Mas me conforta saber que a verdade ainda habita em nós.
(*) Publicado em maio/2007 na Revista Pesquisa da FAPESP
Sem comentários »O Livro de Om (*), por C. S. Soares

Por C. S. Soares
Já sabia pronunciar silenciosamente o Om, a palavra das palavras
Hermann Hesse
OM MANI PADME HUM. MATA TODO DESEJO DE VIVER. EXTIRPA A SENSAÇÃO. Repeti em silêncio, de olhos fechados, concentrado. Logo em seguida, ouvi o som formado pelo ditongo das vogais a e u, nasalizado pela letra m (por isso, certas vezes, é comum a palavra aparecer grafada aum), preencher o ambiente. Percebi, então, o livro caído no chão. Definitivamente, isso só pode ser um sinal, pensei (não havia tempo para que eu duvidasse), logo outro pensamento veio e mais outro, em um caudaloso fluxo de pensamentos. Começar a escrever o conto? Sim, eu sabia a resposta: Mas, isso é algo impossível.
Sabe-se lá de onde e com que intenção, veio a sensação de que se começava a contar o conto, junto com a sua inerente impossibilidade de ser narrado, já que (ora isso todos nós sabemos) contos não podem ser narrados, visto que se encontram em todas as partes, o tempo todo. Refutei em mim mesmo o sentido de reparação, separação e contradição: Mata todo desejo de viver. Mata todo desejo de contar.
Não existem verdades irrefutáveis, quer dizer, talvez apenas uma, aquela que considero a única das verdades irrefutáveis (pelo menos, até o momento, não consegui refutá-la, mas sigo tentando) a de que contos não podem ser escritos, porque contos são infinitos, porque escritores não escrevem contos, são escritos por eles, é como algo descrito pelo que em si descreve, ou seja, algo que me parece existir apenas no domínio da impossibilidade. Entretanto, estava estabelecido, Om seria um conto diferente dos outros. Om estava fadado a ser um conto recursivo, como o próprio Livro de Om.
O conto, em si, já existia há muito tempo, antes mesmo de aparecer em folhas de revistas ou em telas de computadores, e só aparece aqui (e lá), por um engano de individualidade. Isto sou eu, escuta o escritor, do lado de lá da página escrita, no momento em que (pensa) colocar o ponto final no conto. Pelo visto, os contos também tendem a ser inconscientes de sua infinitude e individualidade (o que talvez seja a maior de todas as grandes heresias) que são alcançadas, apenas, quando são abandonadas (resignadamente) para nunca mais.
Depois de uma exalação profunda, mantendo o ritmo regular, seguida de uma inspiração prolongada, sem trêmulo na voz, repeti o mantra. O absoluto não é uma questão da nota musical emitida, assim como o conto (per se) não se importa com que palavras é reconstituído. Quem se importa, sempre, são os outros.
Não consegui tirar os olhos do livro que, no chão, parecia querer servir de portal entre o ilusório, o representável e a realidade. Vejam só como nesse momento as letras parecem escorrer de suas folhas, lentamente, escorrem pelo chão, escorrem para debaixo de meus sapatos, eu observo, calado, espantado, as letras são como formigas, isso, elas não escorrem, formam, organizadamente (em seu contexto), umas linhas distorcidas, incertas de riscos (são formigas-links) que do livro desaparecem por debaixo de meus sapatos. Assustado, levanto o pé esquerdo. Um senhor que, nesse momento, passa ao meu lado (essa sincronicidade, deve ser um sinal, só pode ser um sinal) me pergunta se está tudo bem, o que basta para me desconcentrar, e logo, as formigas-letras já não estão mais lá. Como isso é possível? Elas se recolhem? Ou o caminho é que foi recolhido? Provavelmente, retornaram para dentro do livro (que parece ser feito de vento), de onde jamais deveriam ter saído, essas formigas-caminho, cujas mentes invado, caminho, percorro, e percebo o que delas se cria, esses mundos fantasticamente formigantes, ao mesmo tempo tão pertos e distantes (como a visão que temos dessas formigas). Então, nesse instante fantástico, eu mesmo me transformo em formiga.
Pisco os olhos, nervosamente. Voltei a ser eu mesmo (o que somos?). Não paro de piscar os olhos. Desvio minha atenção do livro e respondo (por educação, mas visivelmente nervoso) ao senhor que me observa desconfiado (e até um pouco constrangido), Está tudo bem, tudo bem, bem, está tudo, bem, está. Ele se afasta (ainda desconfiado e até um pouco amedrontado), olho para os lados, tento me assegurar de que ninguém esteja por perto, me abaixo, levanto com cuidado o pequeno livro azul, tento olhar por baixo do livro, percebo (aliviado) que suas letras não escorrem mais para fora de seu universo particular e literário (meus olhos ainda não conseguiram se tornar cegos de ilusão). Depois, o que leio do seu título, é um rótulo que me recorda um texto do teatro de Racine.
Então, de repente, as letras começam a escorrer novamente, como malditas formigas, malditas, malditas, mil vezes malditas formigas!, em fila indiana, escorrem para fora do mundo literário e invisível a que pertencem, invadem o nosso mundo concreto, mensurável e supersticioso, se embaralham e formam a seguinte frase: Desiste de sua vida, se queres viver. Essas formigas parecem mesmo não ter limites. Agora, elas se auto-rearranjam na capa do livro (que agora parece estar em todas as partes, preenchendo todas as prateleiras), como anagramas dinâmicos, distribuídos, querem provar que são apenas possibilidades, como todo o resto, querem mostrar que já existiam antes de serem arranjadas e rearranjadas, como figuras-problemas, como fortuitos anátemas, como formigas-assim-assado, para todo o sempre, mesmo depois da dissolução, da desintegração dessas páginas escorregadias de tão líquidas, e continuam sua abiogênese, uma geração espontânea de formigas, formagis, fromagis, forgasim, farigsom, fagorims, fagrimso, farigoms, firmagos, firmasgo, fisgamor, fiarsmog, friasmog, frogamis, rasgosim, rasgofim, rifasmog, afrigsom, afogrims, afrogism, afrogmis, afrogsmi, afogsrim, afirmsgo, afirsmog, goframis, grafosmi, gofrasmi, garfosim, grafomis, grafismo, mofagris, morfagis, masgrifo, sografim, ad infinitum…
Pisquei os olhos, novamente, e o livro estava fechado. Conjeturo se não seria um livro controlado automaticamente pelo movimento dos olhos, duções, versões, vergências, que abrem o livro, escaneam suas páginas, hipnotizam e aspiram (inspiram e expiram) o seu conteúdo. Mas, dessa vez, existem três lápis formando um triângulo eqüilátero no chão ao lado do livro (a realidade começava a ser alterada). Na base do primeiro lápis estava escrito, em letras minúsculas, a palavra ignorância. No segundo, aprendizado e no último, sabedoria. Repeti, como uma prece, de olhos fechados, o Om e logo, em meu pensamento, escutei a voz do silêncio que me avisava, Prepara-te pois terás que escrever sozinho a história.
Pisquei os olhos, novamente, mais uma vez a realidade se alterara, e o livro estava de volta à estante giratória. Se tudo não passara de uma alucinação, imaginei, seria possível do ponto onde estava alcançar o livro-comensal de minhas inspirações (pude identificá-lo pela lombada). Estiquei a mão na tentativa de alcançá-lo. Meus dedos conseguiam apenas resvalá-lo. Quanto mais eu me aproximava, menos conseguia alcançá-lo. As leis da física haviam sido subvertidas. A distância entre nós era infinitamente pequena e impossível de ser transposta. A cena não devia ser das mais coerentes para quem a estivesse contemplando no dissipar das sombras. Tive dúvidas, sobre tudo o que relatara mentalmente (até aquele instante) aos meus leitores. Chegar à margem. Aprender a afastar o corpo da mente, a gota d`água do oceano. Mas, e o medo? É ele que se espalha silencioso, espalha seus tentáculos e nos arrasta para o fundo. Paciência. Não piscarei meus olhos nunca mais…
Quanto mais avanço, mais armadilhas. Seria possível que não tivesse sido abordado pelo velho e preocupado senhor? Que as letras-formigas do livro impossível não tivessem realmente escorrido para debaixo de meus sapatos? Seria possível que aquele livro que eu pensava ter tocado, após percebê-lo na estante giratória (seria apenas uma possibilidade?), e todas as outras coisas percebidas ou não, relatadas ou não, deixassem de existir ou mesmo nunca tenham existido? Seriam frutos da minha imaginação?
Em que coordenada desse espaço n-dimensional posso ser encontrado? Para localizar a posição de um objeto nesse espaço são necessárias 3 medidas (do tempo): aquele que se mede pelo presente, o que se mede pelo passado e o que se mede pelo futuro. Encolhendo a vista, forçando o foco, reconheci, por acaso, a capa de um outro livro sobre o qual lera uma resenha (descuidada) naquela mesma manhã. Folheei suas páginas.
Estranhamente me senti forçado a permanecer nas primeiras frases, como se existisse a necessidade de decorá-las. Logo depois, passada a compulsão, libertado desse estranho e obsessivo conceito de eterno retorno, avancei desesperado para o seu final. O livro já não era o mesmo. Havia se transformado. Isso ocorre muitas vezes com um livro. O livro que começamos a ler dificilmente é o mesmo que terminamos. Apesar de entender que as coisas são assim porque devem ser, li as suas últimas frases e, mais tranqüilo, o fechei e o coloquei de novo na estante. Sim, ainda existia uma esperança.
A aranha alcança a liberdade do espaço por meio de seu fio (Qual a sua localização no plano? Qual o nível suportável de seu medo de que o fio se rompa?), assim também o homem em contemplação alcança a liberdade por meio do Om e coloca a morte em seu devido lugar. O fim é imortalidade, união e paz.
Quanto mais metafórico um texto, talvez, mais próximo do real ele esteja. Repeti o mantra. A palavra jamais será o objeto que tenta representar (a palavra se contenta em ser uma representação de ruídos e sons), a não ser que se transforme em metáfora (essa sim, anseia ser o objeto). Quantas metáforas desse conto foram esquecidas? Sinceramente, não sei. Mas, isso não importa, porque se notarmos bem, ele se reinventa, a todo momento.
Assim, eu repeti o Om e reconstitui partes do conto. Enquanto eu ansiava a liberdade de um caminho que, como os livros, escorresse para debaixo de meus sapatos, como as formigas-fragmentos, o mundo inteiro chorou, e então, as formigas-mantras, as formigas-absolutas, elas vieram de todos os lugares, preenchendo o ambiente de uma vibração transcendental, caminharam em direção ao texto e nele se transformaram, guiadas, entoadas por minha própria conquista meditativa em Om.
(*) Originalmente, este conto foi publicado com o título de Om no Cronópios em 06/04/2007.
Sem comentários »