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Leetspeak: Dmitri Nabokov

A entrevista de hoje é um marco na história deste blog. Estamos muito satisfeitos em poder trazer as primeiras palavras de Dmitri Nabokov ao público brasileiro sobre a recém confirmada publicação de The Original of Laura, decisão anunciada há poucos dias e que já rendeu comentários, entrevistas e debates em importantes jornais como oThe New York Times e o The Times, entre outros. Dmitri Nabokov (que ontem completou 74 anos), gentilmente, reservou alguns momentos da última (e movimentada) semana para responder, por email, algumas perguntas ao Pontolit. Aos interessados na obra do mestre Vladimir Nabokov, avisamos que, ao final deste artigo, colocamos alguns links importantes que devem ser úteis aos que buscarem maior aprofundamento no tema.
Por C. S. Soares
Antes, por que Vladimir Nabokov?
Tenho um especial interesse pela obra de Vladimir Nabokov. Uma intensa curiosidade pelo hipertextual Pale Fire e, nos últimos tempos, pelo enigmático The Original of Laura. Trata-se de uma investigação particular, principalmente, a respeito dos métodos não muito ortodoxos que Vladimir usava no seu processo de criação. Ao olhar aguçado e capacidade de surpreender o leitor, soma-se uma peculiaridade: Vladimir costumava compor seus romances como quem monta um quebra-cabeças, a partir do inusitado uso de index cards (fichas semelhantes às catalográficas, ainda encontradas em algumas bibliotecas). Usei (sem saber do exemplo de Nabokov) um método bastante semelhante para escrever (ou montar) o “hipertexto” de Santos-Dumont Número 8 (Universo dos Livros, 2006), simplesmente, por um aspecto prático: os index cards são ferramentas usadas pelos arquitetos de informação (atividade que desempenhei por algum tempo) na estruturação do conteúdo de web sites.
Não por acaso, Pale Fire (no Brasil, Fogo Pálido, em edição da Companhia das Letras) foi definido por Ted Nelson, o criador do hipertexto, como um “proto-hipertexto arquetípico” (aos interessados nessa abordagem, sugiro a leitura deste artigo). Dmitri e o professor Brian Boyd (talvez, o principal biógrafo de Vladimir Nabokov), consideram Pale Fire “o mais perfeito romance de Nabokov”, talvez por ser o texto que melhor represente o seu “jogo intelectual”, como José Castello, jornalista, escritor e um dos mais produtivos críticos literários do país define os romances do mestre Nabokov.
Em breve, aqui no Pontolit, Vladimir Nabokov, O Movimento Secreto
Pedi a José Castello algumas palavras sobre Vladimir Nabokov. Castello (também um de nossos próximos convidados) respondeu ao chamado com uma pequena aula sobre o mestre Nabokov:
Caro Claudio, muito rapidamente, posso dizer que Vladimir Nabokov é um escritor que admiro muito. Aprecio, para começar, o grande pensador da Literatura, que aparece nos ensaios de Aulas de Literatura, infelizmente ainda não traduzido no Brasil, mas disponível em uma edição portuguesa da Relógio D’Água. Os romances de Nabokov, como Lolita, Pnin e Fogo pálido, são romances que “pensam”. Têm estruturas afiadas, engenhosas, são grandes jogos intelectuais que desafiam a segurança e as certezas do leitor. Um de meus favoritos é Despair, creio que também não traduzido entre nós, um romance genial sobre o duplo e sobre o espanto que nos provoca a diferença.
É certo que Nabokov - o enxadrista primoroso, o entomólogo detalhista (na década de 40, foi responsável por organizar a coleção de borboletas do Museum of Comparative Zoology da Harvard University e o gênero Nabokovia leva o nome em sua homenagem) -, continuará, por muitos e muitos anos ainda, a nos propôr seus enigmas. Devo citar um de Pale File, especial para os brasileiros: neste livro enigmático, existem pelo menos duas citações ao “aviador de olhar melancólico” Alberto Santos-Dumont. Uma interessante discussão sobre o tema pode ser encontrada na lista NABOKV-L, hospedada pela University of California, Santa Barbara.
É possível - deixo aqui mais um enigma ou, pelo menos, uma superstição a mais -, que o Santos-Dumont Número 8 deva algum agradecimento a Pale Fire, e este, por sua vez, alguma reverência a Santos-Dumont. Afinal, como já disse o próprio Vladimir Nabokov, “ler é reler”.
The Original of Laura, o movimento secreto
Voltemos ao assunto principal, The Original of Laura, romance que Vladimir Nabokov deixou incompleto - um movimento em suspenso daquele que foi um grande enxadrista -, ao morrer em 2 de julho de 1977. Perfeccionista, um estilista da linguagem, Nabokov deixou ordens expressas aos seus familiares para que seus manuscritos (incompletos) fossem destruídos. Conhecemos bem essa história por exemplos anteriores, como o dos manuscritos de Kafka e, em relação ao próprio Nabokov, dos originais de Lolita que quase foram para a fogueira antes de sua publicação, em 1955.
No mês passado, após um quase inesgotável debate de mais de 30 anos, Dmitri Nabokov, filho e executor da herança literária de Vladimir, anunciou sua “desobediência” às ordens de seu pai: os 138 index cards (de 3x5 polegadas cada) que compõem o manuscrito do The Original of Laura serão finalmente publicados. Vladimir Nabokov, um dos maiores escritores que o século XX conheceu, está ligado aos grandes mestres da Literatura, do passado e do presente, seja pelo talento de seu texto, claro, e (o próprio Dmitri gosta de dizer que o destino nos fala de uma forma estranha, às vezes até enfática) pela data de seu aniversário, 23 de abril, dia em que nasceram Shakespeare, Maurice Druon, K. Laxness, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo e morreu Cervantes. A UNESCO escolheu a data para celebrar mundialmente o Dia do Livro e dos Direitos Autorais.
Às futuras gerações - de uma forma bastante “hipertextual”, por sinal -, a obra de Nabokov, a partir de The Original of Laura, se ligará também pela internet. Dmitri anunciou, em recente entrevista ao Nabokov Online Journal, que o lançamento do romance trará, paralelamente, conteúdos acessados a partir da grande rede. O hipertexto, pelo que vemos, está longe de terminar.
Em 2009, a “The Vladimir Nabokov Collection”, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, também será aberta aos estudiosos da obra do mestre russo-americano.
Dmitri Nabokov
Dmitri Nabokov nasceu em Berlim, Alemanha, no dia 10 de maio de 1934. É o único filho de Vladimir e Véra Nabokov. Foi cantor de ópera (coincidentemente, sua estréia no papel de Colline, em “La Boheme”, no ano de 1961, marcou também a estréia de Luciano Pavarotti no papel de Rodolfo).
Dmitri estudou História e Literatura na Harvard University e foi instrutor no US Army. Hoje, além de responsável pelo legado de obras literárias de Vladimir, Dmitri é considerado o principal tradutor de suas obras. Dmitri também atualiza com alguma frequência um blog em http://dmitrinabokov.blogspot.com/.
A entrevista
Enviado o email com as perguntas, dois dias depois, as respostas chegaram em minha caixa postal eletrônica. Dmitri começava seu e-mail demostrando seu olhar atento e com uma justa, elegante e espirituosa “reprimenda” a respeito de alguns erros de digitação (nem sempre, como disse Matthew Arnold, “Journalism [should be] literature in a hurry”). O bom humor está gravado no gene dos Nabokov…
DMITRI NABOKOV: IN YOUR LETTER YOU REFER TO INDIVIDUALS NAMED “NABOK” AND “KABOKOV.” I DON’T THINK I KNOW THESE GENTLEMEN. (Tradução: em sua carta, você se refere a pessoas chamadas “NABOK” e “KABOKOV.” Penso não conhecer esses senhores.)
O início não foi muito promissor, concordo. Mas havia uma explicação, ou duas: a sempre onipresente Lei de Murphy e um teclado com teclas dispostas em uma configuração não usual. Bem, se não resolvesse, eu ainda poderia apelar para uma desculpa mais “esotérica”, algo como um self-minded keyboard. Na boa, pessoal, esses teclados mais novos não parecem, às vezes, assumir um comportamento indenpendente?
Depois do pequeno “acidente de percurso”, o bate-papo prosseguiu (quase) sem maiores sustos…
C. S. SOARES: Sr. Nabokov, seu pai, Vladimir Nabokov, disse que The Original of Laura foi completado primeiro em sua mente, depois, então, ele resolveu escrevê-lo. Essas duas mulheres (a imaginada e a escrita) são a mesma?
DN: THE ORIGINAL OF LAURA WAS THE FINAL TITLE OF A WORK MY FATHER VLADIMIR NABOKOV HAD MENTALLY COMPOSED IN ITS ENTIRETY. LAURA’S IDENTITY GOES THROUGH INTERESTING PERMUTATIONS IN THE COURSE OF THE STORY. (Tradução: The Original of Laura foi o último título de uma obra que meu pai, Vladimir Nabokov, tinha composto mentalmente em sua totalidade. A identidade de Laura passa por permutações interessantes no curso da história.)
CSS: Mas após 30 anos de convivência com esse “fantasma” em seu pensamento, o que essa mulher representa para o senhor?
DN: MY COEXISTENCE WAS NOT WITH HER, BUT WITH THE QUESTION OF HOW TO DEAL WITH AN ORIGINAL AND INTRIGUING WORK OF MY FATHER’S ONCE IT WAS REPRIEVED FROM A PUTATIVE BONFIRE. (Tradução: Minha convivência não foi com ela, mas com o questionamento de como lidar com um original e intrigante trabalho do meu pai uma vez que ele [o original] estava adiado de uma suposta fogueira.)
CSS: O senhor poderia nos antecipar a primeira frase de The Original of Laura?
DMITRI NABOKOV: SORRY — FOR CONTRACTUAL REASONS, I CANNOT RELEASE ANY MORE QUOTES. (Tradução: Desculpe - por razões contratuais, não posso divulgar mais quaisquer citações.) [Em sua entrevista ao NYT, Dimitri repetiu uma já divulgada: “A process of self-obliteration conducted by an effort of the will. Pleasure bordering on almost unendurable ecstasy. …”]
Mudemos então (rapidamente) o rumo dessa prosa…
CSS: Os index cards, a conhecida técnica de composição de Nabokov, lhe permitiam reorganizar o texto sempre que fosse necessário e, principalmente, escrever seus romances em uma forma não linear. O senhor acha que se Vladimir Nabokov vivesse nesta “Era da Informação”, ele poderia estar, por exemplo, usando os blogs (como o senhor usa) como ferramenta para escrever seus romances?
DN: MY FATHER DETESTED ELECTRICITY, AND EVEN INVENTED A WATER TELEPHONE FOR ONE OF HIS BEST-KNOWN NOVELS. HOWEVER, HE MIGHT HAVE BEEN TEMPTED BY THE CHARMS OF THE COMPUTER. (Tradução: Meu pai detestava eletricidade, e até inventou um telefone de água para um de seus romances mais conhecidos. No entanto, ele poderia ter sido tentado pelos encantos do computador.)
CSS: Thank you, very much, Mr. Nabokov.
DN: MY PLEASURE.
Concordei com Dmitri e, em pensamento, repeti o mesmo a Vladimir, pouco depois de exumar da estante um exemplar de Pale of Fire, e avidamente relê-lo, afinal (não nos cansa de lembrar o mestre russo-americano), leituras não existem, apenas releituras. Vejam bem: releituras, inclusive a desse estranho e enfático destino que 30 anos depois da morte de Vladimir Nabokov, finalmente, nos alcançará.
Acesse também:
• His father’s siren, still singing, The New York Times
• “LAURA IS NOT EVEN THE ORIGINAL’S NAME”: An Interview with Dmitri Nabokov by Suellen Stringer-Hye
• Vladimir Nabokov, his masterpiece and the burning question, The Times.
• O blog de Dmitri Nabokov
• The art of fiction no. 40: Vladimir Nabokov, The Paris Review
1 comentário »Leetspeak: Sérgio Rodrigues

O experiente Sérgio Rodrigues é jornalista e escritor (não necessariamente nesta ordem, como costuma lembrar). Foi correspondente do Jornal do Brasil em Londres, atuou na Folha de S.Paulo, O Globo, Veja Rio, TV Globo e, nos últimos anos, tem estado à frente de um dos melhores blogs nacionais sobre Literatura, o Todoprosa, primeiro na revista eletrônica NoMínimo, depois em endereço próprio. O autor da novela As Sementes de Flowerville (Objetiva, 2006) fala ao Pontolit sobre Literatura e internet, explica a Palavra da semana, sua coluna na Revista da Semana, e anuncia em primeira mão a estréia do Todoprosa no portal iG, ainda esta semana, novamente com atualizações diárias.
Por C. S. Soares
Pontolit: Fale-nos sobre Palavra da semana, sua coluna na “Revista da Semana”. Recentemente, ao descrever um neologismo, adultescente (que você informa vir de “adultescent”, como registrado pela primeira vez em 1996, eleita, pelo dicionário Webster’s, a “palavra do ano” de 2004) você comentou que o sucesso de uma palavra nunca se funda apenas na lógica interna da língua.Sérgio, o que é mesmo a palavra?
Sérgio Rodrigues: Se você escreve, é praticamente tudo. A coluna da “Revista da Semana”, Palavra da semana, é uma filha de A palavra é…, seção diária que eu mantive por alguns anos no falecido site Nomínimo. Que, por sua vez, tinha sido um desdobramento do meu trabalho com crônicas sobre língua e linguagem. A idéia, com esses textos, era trocar a abordagem professoral que costuma ser dada ao tema por uma mais lúdica, de escritor e não de acadêmico. Isso começou no “Jornal do Brasil” com uma seção chamada Mascando clichê, em 2001. Acabou dando no meu livro “What língua is esta?” (Ediouro), publicado em 2005. Até hoje, para minha satisfação, vira e mexe um desses textos cai em alguma prova de português em vestibular ou concurso público. Gosto muito do tema, e procuro transformar meu diletantismo em trunfo. Parafraseando alguém, a língua é rica demais para ficar entregue apenas a professores de português. Com todo o respeito.
P: Certa vez, o professor Evanildo Bechara, citando Fernão de Oliveira, afirmou que a língua é o que os falantes fazem dela, logo, não pode deixar de ser um reflexo sociocultural das comunidades. Sérgio, o que você acha do acordo ortográfico da língua portuguesa? Recentemente, no “Entre aspas”, da Globo News, você assumiu uma postura cética em relação ao acordo. Mais recentemente, no seu blog Todoprosa, você propôs um debate público com mais profundidade a respeito do assunto. De que forma você entende que o debate poderia colaborar com o acordo, que, aparentemente, como você mesmo reconhece, nos parece mera questão de tempo?
SR: Minha opinião sobre o acordo está mudando. No debate da Globonews, eu estava muito fixado no que ele tem de limitado, de insatisfatório. Se é para ter uma reforma meia-sola, como a que acabou saindo, melhor não mudar, eu pensava. Hoje estou revendo essa visão, que me parece acomodada e de curto prazo. Acho que os benefícios de uma integração ortográfica, principalmente se pensarmos num prazo longo, superam todas as desvantagens. É claramente prejudicial e até meio constrangedor manter o cisma entre os falantes de português neste mundo globalizado. Quanto à discussão que tentei levantar - sem muito sucesso, aliás - acho que o assunto merece e até exige um debate amplo. Talvez seja tarde para mudar a reforma, mas não para nos posicionarmos com clareza sobre algo que vai mexer com a vida de todo mundo. Esse silêncio emburrado que cerca o assunto no Brasil não depõe muito a favor de nossa maturidade intelectual. Uma pena.
P: Fale-nos sobre As Sementes de Flowerville, seu primeiro romance, lançado em 2006. A vida imita a arte?
SR: Não, neste caso eu acho que a arte imita a vida, mesmo. Flowerville é uma Barra da Tijuca elevada ao cubo, e seus personagens amorais uma caricatura da classe média brasileira. A idéia era fazer uma farsa de leitura compulsiva, uma distopia cheia de humor negro com ritmo de história em quadrinhos, mas que fosse ao mesmo tempo um espelho distorcido de coisas muito sérias, muito doloridas deste nosso país absurdo. Talvez por isso alguns críticos não tenham entendido o livro muito bem. Parece descartável mas é sério? Parece sério mas é pop? Rolou uma perplexidade. Mas sempre achei que, sem correr riscos, a literatura não tem graça.
P: Mas a perplexidade gerada pela dúvida (ou advinda desta), nesse caso, me parece, não deixa de ser um reconhecimento ao esforço do autor. Creio que você tenha atingido o objetivo de apontar a imagem distorcida (e talvez a distorção não esteja no espelho). O Sementes é uma novela de aproximadamente 130 páginas. A escolha por um texto não tão extenso foi proposital? Acompanho seus “Sobrescritos” no Todoprosa e observo que você vem se especializando em minicontos. Aprender a escrever textos cada vez mais curtos (ou melhor, passar a sua mensagem em textos cada vez mais curtos) é uma das necessidades do escritor dos nossos dias?
SR: Olha, pode ser, mas meu trabalho sempre foi no sentido contrário: o de escrever textos cada vez mais longos. Os contos do meu primeiro livro, O homem que matou o escritor (Objetiva, 2000), que são provavelmente a melhor coisa que já escrevi, são contos longos, com uma média de vinte, trinta páginas cada um. “Flowerville” é uma novela ou romance curto, mas nem por isso deixa de ser minha narrativa mais longa até hoje. O próximo romance deve ser maior. Isso é resultado de um esforço, de um aprendizado sobre a estrutura, a sustentação de um arco narrativo de longo alcance. O texto curtíssimo, para mim, sempre foi fácil, natural, mas de alguma forma insatisfatório. Não generalizo isso. Não estou traçando aqui uma hierarquia entre os gêneros, apenas falando de um sentimento que é meu, particular. É claro que textos curtíssimos podem ser geniais, embora a imensa maioria seja apenas sintoma de preguiça do autor. Agora, a série Sobrescritos do Todoprosa, que tem me dado muito prazer escrever, vai realmente na contramão de tudo isso que eu acabei de dizer: é minha reconciliação com o miniconto. Na velocidade da internet, é claro que essa ligeireza funciona bem.
P: O Todoprosa é, na minha modesta opinião, um dos blogs mais simpáticos e importantes sobre Literatura no Brasil. Os artigos, nota-se, são sempre pertinentes e cuidadosamente escritos. Fale-nos como surgiu a idéia, qual a sua importância na carreira do jornalista e escritor? Os blogs poderão, um dia quem sabe, serem considerados Literatura?
SR: Obrigado pela avaliação generosa do blog. Ele surgiu também no Nomínimo, para suprir uma necessidade do site na cobertura de literatura. Eu já era escritor publicado e tinha muitos anos de experiência no jornalismo cultural, inclusive resenhando livros, mas nunca me imaginara fazendo um blog. Gostei da experiência, e hoje o Todoprosa cumpre um papel importante no meu equilíbrio como escritor. Não me deixa ficar fechado demais no que estou escrevendo no momento, me força a abrir as janelas, dar uma arejada. Mas acho importante encarar os blogs apenas como meio. Se você puser literatura ali dentro, é literatura. Se puser lixo, é lixo. Ele em si é só um meio, e um meio ótimo, por permitir a interatividade, os links etc.
P: A avaliação não é generosa, é justa. O TP é um exemplo a ser seguido no que diz respeito a eficiência (e eficácia) de blogs como veiculos efetivos de comunição. Em relação aos blogs em geral, concordo, eles são apenas meio, “armazenadores de conteúdo” (como os livros afinal). Mas lhe pergunto: poderão, um dia, chegar a ser não um meio, mas um fim? Explico: como o objetivo final de publicação mesmo, ou pelo menos, como já se observa em casos no exterior, uma ferramenta de auxilio ao escritor para que, interativamente com seus leitores, ele possa “validar” o conteúdo (seja ficcional ou não), abrindo acesso e permitindo comentarios, criticas e sugestões antes da publicação? (Nota: um bom exemplo é o livro “em progresso” The Googlization of everything, de Siva Vaidhyanathan, um projeto do autor em parceria com o Institute for the Future of the Book).
SR: Não duvido que a criatividade de quem já nasceu na nossa era virtual encontre para essas ferramentas usos que nós, o pessoal da transição, nem sonhamos. Tem sido assim ao longo da história de todos os meios. Mas não estarei entre esses pioneiros, posso lhe garantir. Isso de “validar o conteúdo” com os leitores me parece um pesadelo.
P: Novos projetos para o biênio 2008/2009?
SR: Estou escrevendo um romance baseado num episódio histórico que por enquanto não convém adiantar. Só garanto que não tem nada a ver com Santos Dumont! Outra coisa, esta em primeira mão: o Todoprosa está voltando agora em maio a ser um blog profissional, renovado diariamente, como nos tempos do Nomínimo. Vai ficar dentro do iG, mas continuará sendo possível chegar lá através do endereço de hoje, http://www.todoprosa.com.br.
P: Ótimas notícias, Sérgio. Em relação ao livro, você como bom mineiro, dá poucas informações, mas saiba que novos livros discutindo o gênio de Santos Dumont serão sempre bem vindos. E assim, o TP volta a ser diário, para a felicidade de todos os seus interessados e participativos comentadores. Qual a da estréia do TP no iG? O formato será o mesmo? Haverá algum evento especial para marcar a data?
SR: O blog será basicamente o mesmo de sempre. A mudança, a menos que haja um percalço tecnológico, rola nos próximos dias, ainda esta semana. A principal diferença é que o Todoprosa volta a ser diário e mais atento ao pulso do mercado, aos lançamentos, como era em seus primeiros tempos. E falando para uma audiência potencialmente maior, o que tem tudo para tornar mais animada a discussão entre os leitores, que sempre foi um dos pontos fortes do blog. Talvez algumas novas seções acabem sendo criadas com o tempo, mas nada dramático. Acho que a simplicidade do formato é uma qualidade que deve ser preservada.
P: Por fim, Sérgio, o que você achou das novas histórias do We tell stories, projeto da Penguin Books ? A minha opinião é que são mais plausíveis e realistas do que aquela primeira, The 21 steps, baseada no Google Maps.
SR: Sim, o nível das histórias é desigual, como não podia deixar de ser, mas depois daquela estréia desastrosa a média subiu muito. Existem bons caminhos sendo apontados ali. Gostei principalmente da experiência chamada Your place and mine, escrita em tempo real, com os comentaristas participando em tempo real. Mais ou menos na linha do que você mencionou há pouco, e que eu chamei de pesadelo. Acompanho essas coisas com o maior interesse. Só não me peça para escrever assim. Gosto demais do texto-texto, e o espaço de exploração que ele oferece ainda me parece longe de se esgotar. Prefiro ficar trabalhando por aqui.
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Caro Claudio, muito rapidamente, posso dizer que Vladimir Nabokov é um escritor que admiro muito. Aprecio, para começar, o grande pensador da Literatura, que aparece nos ensaios de Aulas de Literatura, infelizmente ainda não traduzido no Brasil, mas disponível em uma edição portuguesa da Relógio D’Água. Os romances de Nabokov, como Lolita, Pnin e Fogo pálido, são romances que “pensam”. Têm estruturas afiadas, engenhosas, são grandes jogos intelectuais que desafiam a segurança e as certezas do leitor. Um de meus favoritos é Despair, creio que também não traduzido entre nós, um romance genial sobre o duplo e sobre o espanto que nos provoca a diferença.